O regime da Venezuela iniciará, em agosto, uma mesa de trabalho com setores da oposição, sete meses após a queda de Nicolás Maduro em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, anunciou o presidente da Assembleia Nacional.
Poucos dias antes dos terremotos de 24 de junho que deixaram ao menos 4.829 mortos no país, segundo balanço divulgado nesta quarta (15), a líder opositora exilada Dinorah Figuera viajou a Caracas para se reunir com representantes da líder interina, Delcy Rodríguez.
Durante a visita, Figuera, que conta com o apoio de Washington, reuniu-se com o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da líder interina, e também com dirigentes da oposição.
Em mensagem publicada na terça-feira (14) no Telegram, Jorge Rodríguez anunciou o início de uma agenda conjunta de trabalho, a partir de 1º de agosto, com ex-integrantes da Assembleia Nacional eleita para o período de 2015 a 2020.
Figuera preside desde 2023 uma comissão que representa essa legislatura. O Parlamento foi esvaziado politicamente durante o regime de Maduro, mas continua sendo reconhecido por Washington como o órgão legislativo legítimo da Venezuela.
Em resposta ao anúncio de Rodríguez, Figuera escreveu no X que assumia “o compromisso e a vontade política de impulsionar um roteiro técnico e político bilateral que permita abordar os temas fundamentais para consolidar o caminho rumo à recuperação da democracia na Venezuela”.
Segundo comunicado dos ex-parlamentares opositores, reproduzido por Figuera na rede X, a agenda dará prioridade ao “fortalecimento das instituições democráticas, do sistema eleitoral e ao restabelecimento das garantias para a participação política”.
Na terça-feira, o Parlamento retomou suas sessões em uma sede alternativa porque o Palácio Legislativo “sofreu danos importantes” com os terremotos, informou Jorge Rodríguez antes dos debates.
Durante a sessão, o líder parlamentar informou sobre a morte de uma deputada e de sua filha durante os sismos. “Presto homenagem a Jessica Carolina de León, nossa deputada” que morreu com sua filha na tragédia, disse Rodríguez.
Na contramão
A líder da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, exilada desde o fim do ano passado, ainda não comentou os avanços das negociações iniciadas por Figuera no mês passado.
María Corina reivindicou a vitória do opositor Edmundo González Urrutia nas contestadas eleições de 2024, nas quais Maduro foi declarado vencedor em meio a denúncias de fraude.
Após a captura, em janeiro, de Maduro, atualmente preso em Nova York sob acusações de narcotráfico, tanto María Corina quanto González Urrutia passaram a defender a realização de novas eleições presidenciais.
No fim de maio, a líder opositora havia manifestado sua determinação em negociar uma transição democrática com o governo de Delcy. Após os terremotos, María Corina acusou as autoridades venezuelanas de fechar o espaço aéreo para impedi-la de retornar ao país, do qual saiu de forma clandestina para receber o Prêmio Nobel em Oslo, em dezembro.
Especialistas afirmam que a insistência de María Corina em retornar vai “na contramão” dos interesses de Washington. Isso “a deixou ainda mais à margem do processo de transição” política, afirmou à agência de notícias AFP Juan Manuel Trak, professor da Universidade de Salamanca, na Espanha.
Delcy Rodríguez, que governa sob forte pressão dos EUA, assumiu o poder de forma interina em janeiro, após a queda de Maduro. Desde então, libertou presos políticos, embora ainda haja mais de 370 atrás das grades, segundo a ONG Foro Penal.
A mandatária impulsionou reformas nos setores de mineração e petróleo para abrir o país, que tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, assim como jazidas de ouro, bauxita e coltan, a capitais estrangeiros.
Em março, Washington e Caracas concordaram em restabelecer as relações diplomáticas e consulares, após sete anos de ruptura durante o regime de Maduro.
Na segunda-feira, a líder interina nomeou como o novo chanceler Félix Plasencia, que atuava como seu representante diplomático nos Estados Unidos, e unificou os ministérios das Relações Exteriores e do Comércio Exterior. Nesta terça-feira, ela nomeou o ministro do Comércio Exterior, Johann Álvarez Márquez, como o novo chefe da missão diplomática da Venezuela nos EUA.




