Count Binface promete proibir comer salgadinhos barulhentos em salas de cinema e banir o VAR do futebol. Também projeta punir ciclistas que desrespeitam regras de trânsito com o uso compulsório de monociclos. Se tudo isso é mais importante do que a plataforma populista de Nigel Farage, os eleitores de Clacton responderão em 13 de agosto.
Farage, principal face da ultradireita britânica, em franca ascensão no Reino Unido, fabricou uma eleição distrital para tentar escapar de denúncias de doações indevidas.
Não esperava, no entanto, que Binface, 5.900 anos, líder dos Recyclons, um “guerreiro espacial totalmente independente”, voltasse de alguma galáxia distante a tempo de ironizar a manobra do agora ex-parlamentar.
Farage renunciou ao mandato na semana passada para ser “julgado pelos eleitores”. Revelações da imprensa mostraram que ele ganhou £ 5 milhões (R$ 34 milhões) de presente de um bilionário de criptomoedas e apoio financeiro de um amigo condenado por fraudes. Os casos foram parar na Comissão de Ética do Parlamento, pois Farage não declarou as doações.
Argumentando que o histriônico líder do Reform UK estava montando um “circo de mídia” para minimizar o impacto das acusações, os grandes partidos se recusaram a lançar candidatos em Clacton, um balneário popular no sudeste da Inglaterra, reduto de Farage —um dos locais de maior votação em favor do brexit, no plebiscito de 2016, sua maior bandeira.
No fim, restou Binface e mais uma meia dúzia de nanicos na corrida. “Na improvável hipótese de os humanos preferirem a mim do que ao velho Nige, então farei o meu melhor para representá-los”, disse o candidato sem partido ao jornal The Guardian.
Veterano em eleições, Binface, algo como “cara de lata de lixo”, é um personagem criado pelo comediante Jon Harvey. Com um uniforme entre Batman e Darth Vader e uma lata de lixo na cabeça, já concorreu até pelo posto de primeiro-ministro contra Rishi Sunak e Boris Johnson. Com outro personagem, enfrentou também Theresa May.
Em junho, foi adversário de Andy Burnham, que se elegeu ao Parlamento para poder ascender ao cargo mais alto da política britânica. O trabalhista deve substituir o colega de partido Keir Starmer no começo da próxima semana.
Foi entre Binface e um ativista vestido de raposa, também candidato, que o ex-prefeito de Manchester recebeu o resultado de sua esmagadora eleição em Makerfield, por 74 mil votos. Contendo o riso, Burnham sabia que ali cumpria uma das tradições da política britânica, a de ouvir a proclamação dos resultados ao lado dos adversários.
Esse é também o grande momento dos candidatos fantasiados ou de paródia, como são chamados na Inglaterra: aparecer na foto ao lado dos políticos tradicionais ou, ainda que na marra, falar com a imprensa. No mês passado, Binface interrompeu uma transmissão ao vivo da Sky News, que transmitia da sala de apurações, exigindo uma entrevista.
O repórter comprou a brincadeira é perguntou quem ele era. “Eu não sou Andy Burnham”, disse o mascarado.
Em Makerfield, o nome intergalático recebeu apenas 95 votos, longe da barreira de 5% que o liberaria da taxa de £ 500 (R$ 3.400) cobrada de quem participa de eleições. Essa é uma das poucas exigências para ser candidato no Reino Unido. As outras são ter no mínimo 18 anos, ser cidadão britânico e reunir dez assinaturas de eleitores registrados no distrito em que deseja concorrer. Não é preciso nem um partido.
Por outro lado, é vedada a participação de policiais, integrantes das Forças Armadas, funcionários públicos e juízes, assim como a candidatura de condenados por alguns tipos de crime, eleitorais inclusos. Isso talvez explique a reação de Farage, até outro dia quase em voo de cruzeiro para se tornar primeiro-ministro em 2029.
Sua reeleição virou piada na boca dos adversários. Líder dos conservadores, Kemi Badenoch aproveitou para descrever Binface como a “opção do povo” depois de Farage classificar a eleição que armou de uma disputa entre “povo e establishment”. Starmer abusou da ironia ao ser provocado por jornalistas, dizendo que os trabalhistas não lhe permitiam endossar candidatos de outros partidos.
Enquanto isso, Binface enche o eleitor de promessas. O Wigan Kebab, sanduíche cujo recheio é uma torta de carne, não poderá custar mais de £ 2. Populismo? Em 2003, o macaco H’Angus, mascote do Hartlepool United, time da quinta divisão inglesa, foi eleito prefeito com uma única plataforma: banana de graça para as crianças nas escolas.




