Diante de uma plateia esvaziada na Assembleia-Geral da ONU, Serguei Lavrov, ministro veterano das Relações Exteriores da Rússia, afirmou que o Ocidente é um “império de mentiras” e criticou a União Europeia e os Estados Unidos, que impuseram sanções contra o país por conta da Guerra da Ucrânia.
“Americanos e Europeus desprezam o resto do mundo, fazem todo tipo de promessas e não cumprem”, disse, mencionando o compromisso de não expandir para o leste a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental fundada em 1949), movimento frequentemente usado como justificativa para o conflito no Leste Europeu.
Entre outras promessas não cumpridas pelo Ocidente, segundo Lavrov, está a de direcionar US$ 100 bilhões por ano a nações emergentes para mitigar os efeitos da crise climática —esses países gastam muito mais armando a Ucrânia, afirmou.
“Se compararem o quanto se gasta apoiando o regime racista em Kiev, vocês vão entender quão esclarecido o Ocidente realmente é”, afirmou.
O apoio ocidental tem sido crucial para Kiev enfrentar a invasão russa. Do início da guerra até fevereiro de 2023, a ajuda militar à Ucrânia liderada pelos EUA chegou a US$ 100 bilhões (R$ 500 bilhões), segundo a chancelaria ucraniana.
Tal investimento faz as potências ocidentais estarem em guerra direta contra Moscou “usando os cadáveres dos ucranianos”, afirmou Lavrov em uma entrevista coletiva após o discurso. “Podem chamar como quiserem, mas estão lutando diretamente contra nós. Chamamos isso de guerra híbrida, o que não muda as coisas”, disse ele.
Na tribuna da ONU, Lavrov também acusou Washington de tentar transformar sua doutrina Monroe em uma ordem global para manter sua influência em várias regiões do mundo, não só nas Américas —um eco da ideia, apoiada pela China, de que os EUA se nega a aceitar a multipolaridade.
Segundo Lavrov, países liderados por Washington e pelo Bloco Europeu, que ele chamou de “minoria global”, tentam a todo custo impedir a “maioria global” de lutar pela reforma das instituições multilaterais. A demanda para que esses órgãos reflitam melhor a nova realidade mundial —bem diferente do cenário pós-Segunda Guerra Mundial, quando essas instituições foram criadas— tem aparecido com frequência em reuniões multilaterais.
“Uma revisão da ordem mundial está em curso”, disse. “É inexorável a tendência de países da maioria global de fortalecerem sua soberania e se organizarem, porque não querem mais ficar sob o jugo da minoria global. Essas nações [em desenvolvimento] querem ser amigas entre elas.”
Ele citou comentários críticos do presidente da França Emmanuel Macron, à expansão do Brics, grupo que aumentou seu número de membros em agosto, durante reunião em Joanesburgo, na África do Sul.
“Se alguém quer se reunir sem eles, eles já encaram como uma ameaça”, disse, referindo-se ao Ocidente. Lavrorv afirmou que, pela primeira vez desde 1945 existe uma chance real de democratizar os assuntos globais. Os EUA, porém, fazem tudo o que é possível para impedir o fortalecimento de “uma nova ordem mundial genuinamente multipolar”, segundo ele. “O Ocidente ainda acredita ser superior a todos os outros.”
Assim como o governo do Brasil e de outras nações em desenvolvimento, o chanceler defendeu a reforma no sistema de cotas e votos no Banco Mundial e no FMI (Fundo Monetário Internacional), que dão um peso maior a nações desenvolvidas em sua estrutura de comando, e a reabilitação da OMC (Organização Mundial de Comércio), paralisada desde dezembro de 2019.
Ele pediu mais representatividade de América Latina, África e Ásia entre os membros permanentes e não permanentes do Conselho de Segurança da ONU e acusou os EUA de minar as reformas.
“Já passou da hora de reformar a governança global”, disse. “Os EUA e seus aliados não querem negociar para tornar os processos globais mais justos.” Caso o impasse se mantenha, continuou, os países da maioria global terão que desenvolver seus próprios foros, “não dependentes dos instintos neocoloniais das grandes potências”.
O russo voltou a criticar as sanções impostas à Rússia por conta da invasão da Ucrânia, afirmando que as “restrições ilegais” prejudicam “os estratos mais vulneráveis da sociedade e causam uma crise de alimentos e energia”.
O Brasil se opõe às sanções, assim como ao embargo americano contra Cuba, o que também foi criticado por Lavrov. Em um trecho de acenos a países em desenvolvimento, o russo ainda instou os EUA a “abandonar o sufocamento da Venezuela”. Devido à alta dos preços do petróleo, o governo americano vem, gradualmente, relaxando as sanções contra o regime de Nicolás Maduro.
Os EUA também foram criticados quando o chanceler citou o conflito entre Israel e Palestina. Washington, afirmou Lavrov, tem o monopólio da mediação e impede que a questão seja resolvida.
Nas últimas cinco décadas como diplomata, primeiro pela União Soviética e depois pela Rússia, Lavrov conquistou respeito e poder —ele está há quase duas décadas no cargo de chanceler. Para comparação, os EUA tiveram sete secretários de Estado dos EUA nesse período, de Colin Powell a Antony Blinken, passando por Hillary Clinton e Mike Pompeo.
Nos últimos meses, o diplomata se tornou o defensor público da invasão da Ucrânia, já que seu chefe, o presidente Vladimir Putin, reduziu as viagens internacionais após o Tribunal Penal Internacional (TPI) decretar sua prisão, em março. Assim como o líder russo, Lavrov tem retomado uma certa retórica de Guerra Fria e parece saudoso dos tempos em que a Rússia dava as cartas.




