Rússia: Putin se isola em bunkers por medo de assassinato – 05/05/2026 – Mundo

Rússia: Putin se isola em bunkers por medo de assassinato


A Rússia intensificou os protocolos de segurança para o presidente Vladimir Putin em meio a temores de assassinato à medida que ele se torna mais isolado e absorvido pela guerra na Ucrânia.

Nos últimos meses, o Serviço Federal de Proteção da Rússia (FSO, na sigla em russo), responsável pela segurança de altos funcionários, reforçou de forma drástica a segurança em torno do presidente. Ele passa mais tempo em bunkers subterrâneos controlando cada detalhe da guerra e se tornou mais distante dos assuntos civis, de acordo com pessoas próximas a Putin em Moscou e uma pessoa próxima aos serviços de inteligência europeus.

O isolamento de Putin aumentou nos últimos anos, particularmente desde a pandemia de Covid-19. Mas, a partir de março, a preocupação do Kremlin com um golpe de Estado ou uma tentativa de assassinato, especificamente envolvendo drones, intensificou-se, disse a pessoa próxima à inteligência europeia.

“O choque da Operação Teia de Aranha da Ucrânia ainda persiste”, disse ao Financial Times uma pessoa familiarizada com Putin. No ano passado, drones ucranianos atacaram aeródromos russos. Os receios em relação à segurança foram alimentados pela prisão do então líder venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos em janeiro, disse uma segunda pessoa também familiarizada com o presidente.

Em resposta, o FSO reforçou ainda mais as rigorosas medidas de segurança. Putin reduziu suas visitas e as verificações de segurança para pessoas que se encontram com ele pessoalmente foram ainda mais intensificadas, disse a pessoa próxima à inteligência europeia.

O presidente e sua família deixaram de ir às suas residências na região de Moscou e em Valdai, no noroeste do país. Putin está passando mais tempo em bunkers, inclusive na área de Krasnodar, no sul da Rússia, trabalhando de lá há várias semanas, enquanto a mídia estatal usa imagens gravadas para projetar normalidade.

Os funcionários do círculo mais próximo do presidente, incluindo cozinheiros, fotógrafos e guarda-costas, foram proibidos de usar transporte público e telefones celulares ou dispositivos com acesso à internet perto dele. Sistemas de vigilância foram instalados em suas casas.

Pessoas na Rússia que conhecem Putin disseram que os recentes cortes de internet em Moscou também estão, pelo menos em parte, relacionados à segurança do presidente e à proteção contra drones. Agentes do FSO agora realizam verificações em larga escala com a ajuda de unidades caninas e estão posicionados ao longo das margens do rio Moscou, prontos para reagir em caso de ataques com drones, de acordo com a inteligência europeia.

Procurado, o Kremlin não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

As preocupações com a segurança não se limitam a Putin. De acordo com uma pessoa próxima à inteligência europeia, representantes dos serviços de segurança, em uma reunião com o presidente no final do ano passado, culparam-se mutuamente pelas falhas na proteção dos principais militares da Rússia, incluindo o assassinato de Fanil Sarvarov, um tenente-general —o mais recente de uma série de ataques ligados à Ucrânia.

Alexander Bortnikov, chefe do FSB, o serviço federal de segurança, culpou o Ministério da Defesa, que, ao contrário de outras agências, não possui uma unidade dedicada à proteção de altos funcionários. Viktor Zolotov, chefe da Guarda Nacional e ex-guarda-costas de Putin, negou a responsabilidade, mencionando recursos limitados.

Por fim, o presidente apelou à calma e incumbiu o FSO de garantir a segurança de dez generais de alta patente, incluindo três generais adjuntos de Valeri Gerasimov, chefe do Estado-Maior, que até então era o único oficial sob tal proteção.

O endurecimento das medidas de segurança coincidiu com Putin, que tradicionalmente se dedica mais à geopolítica, deixando de lado as políticas internas para se concentrar na guerra, disseram duas pessoas próximas a ele.

O presidente faz reuniões diárias com oficiais militares, focando em detalhes operacionais, como os nomes de pequenos assentamentos ucranianos que estão trocando de mãos. Autoridades não relacionadas à guerra, em contrapartida, geralmente só têm audiência uma vez a cada poucas semanas ou meses.

“Putin passa 70% do seu tempo administrando a guerra e os outros 30% reunindo-se com [alguém como] o presidente da Indonésia ou tratando da economia”, disse uma pessoa próxima a ele, acrescentando que a única maneira de obter mais acesso é “fazendo mais guerra”.

Andrei Kolesnikov, um analista político baseado em Moscou, disse: “Putin é como a nova escultura de Banksy em Londres [um homem carregando uma bandeira que cobre seu rosto], ele não quer ver nem ouvir. Ele só ouve os serviços de segurança, que agora controlam todas as esferas da vida, e espera que as pessoas se adaptem a isso como o novo normal.”

O distanciamento do presidente alimentou a frustração entre os russos, que estão cada vez mais cansados da guerra e lidando com crescentes problemas internos.

De acordo com pesquisas de opinião financiadas pelo governo e por institutos independentes, os índices de aprovação de Putin caíram para o nível mais baixo desde o outono de 2022, quando ele anunciou uma mobilização parcial, levando centenas de milhares de jovens a fugir do país.

As redes sociais estão repletas de vídeos de russos comuns e influenciadores criticando as autoridades pelas restrições à internet, impostos para pequenas empresas e abate de gado na Sibéria.

A mais proeminente foi Viktoria Bonia, uma blogueira de estilo de vida radicada em Mônaco. Em um vídeo de 18 minutos dirigido a Putin no mês passado, ela disse que “as pessoas têm medo dele”. O vídeo recebeu mais de 1,5 milhão de curtidas.

Embora Bonia tenha deixado claro que não se opõe ao regime, a repercussão do vídeo obrigou o Kremlin a reconhecer que o havia visto.

Após o discurso de Bonia, Putin abordou publicamente as repressões à internet pela primeira vez, instando as autoridades a “informarem os cidadãos” adequadamente e a não “se concentrarem apenas em proibições”.

Em 27 de abril, Putin fez sua segunda aparição pública do ano, visitando uma escola de esportes em sua cidade natal, São Petersburgo. Um vídeo divulgado pelo Kremlin o mostra em uma breve conversa com um grupo de meninas de collant preto, ao final da qual ele beija uma delas na testa.

O Kremlin há muito tempo utiliza essas interações encenadas com pessoas comuns para demonstrar a acessibilidade de Putin.

“Um sinal claro de que Putin está preocupado com a queda em seus índices de aprovação: ele está beijando crianças em público novamente”, disse Farida Rustamova, fundadora do boletim informativo independente Vlast e analista política, referindo-se a casos semelhantes, como quando Putin beijou um menino na barriga em 2006, aparentemente numa tentativa de retratar o presidente como mais próximo das massas.

As poucas viagens e reuniões do presidente até agora neste ano, em comparação com pelo menos 17 em 2025, são outro sinal de segurança mais rígida e foco reduzido em assuntos internos. Os compromissos do ano passado incluíram visitas à região de Kursk, na fronteira com a Ucrânia, e ao quartel-general militar, onde ele apareceu uniformizado pelo menos cinco vezes.

“A lacuna entre o que Putin está disposto a lidar e o que se espera dele está aumentando”, disse Tatiana Stanovaia, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center, acrescentando que é improvável que isso mude em breve.

Os “surtos de descontentamento do público só se tornarão mais frequentes”, acrescentou ela.



Fonte CNN BRASIL

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