O governo de Vladimir Putin anunciou ter tomado nesta sexta-feira (3) Konstantinovka, a primeira das três cidades que integram o chamado “cinturão das fortalezas” de Donetsk, no leste da Ucrânia.
Se confirmada, sua queda abre uma brecha para a conquista dos cerca de 15% da região ainda em mãos de Kiev, um processo que não será nem rápido, nem fácil de todo modo.
As Forças Armadas da Ucrânia não comentaram o anúncio, que vem em um momento de grande pressão sobre o Kremlin. A recente campanha de ataques de Kiev contra o sistema energético do vizinho causou uma crise para Putin, com os repetidos danos a refinarias provocando desabastecimento de combustível na Rússia.
O próprio Putin admitiu o transtorno, que ameaça diretamente sua popularidade e levou a especulações acerca de uma nova mobilização de tropas ou até ao recurso a armas nucleares táticas, de uso limitado ao campo de batalha, em debates públicos no país.
Há filas em postos de gasolina de diversas regiões, e áreas como a Crimeia anexada, Kaliningrado e Novorossisk limitaram a venda de combustíveis. Na cidade autônoma crimeia de Sebastopol, os preços nas bombas subiram 30% na última semana.
Com isso, a boa notícia militar para um Putin vestindo uniforme camuflado, dada pelo chefe do Estado-Maior russo, Valeri Gerasimov, soa algo suspeita. Mas há indícios independentes de que a situação em Konstantinova era precária.
A agência Reuters publicou uma reportagem mostrando as dificuldades naquela frente nesta semana, e seus repórteres relataram que a cidade já registrava combates de rua entre ucranianos e pequenas unidades russas que conseguiram furar a chamada zona da morte.
Nesta faixa da frente de batalha, os drones são onipresentes, dificultando ao máximo a movimentação de soldados. Com isso, avanços apoiados por blindados foram substituídos dos dois lados por táticas mais móveis, empregando quadriciclos e pequenas unidades para abrir caminho.
Segundo a reportagem ouviu nesta sexta de um analista militar que acaba de voltar da parte ocupada de Donetsk, o anúncio soa crível, mas seria necessário esperar um pouco para mensurá-lo.
Konstantinovka é a primeira das cidades do “cinturão das fortalezas”, fortemente defendida e com grande concentração urbana, o que dificulta o movimento de tropas. Ela fica a cerca de 30 km a sul de Kramatorsk, o alvo seguinte e de maior importância estratégica.
Desde 2014, quando a capital homônima de Donetsk caiu em mãos separatistas pró-Rússia na guerra civil disparada após a derrubada do governo amigo do Kremlin em Kiev, Kramatorsk sedia o governo ucraniano da região.
Situada 15 km ao norte da capital provisória está a última cidade do cinturão, Sloviansk. Toda a região engloba quase 20 vilas e cidadezinhas de maior porte, que concentram ao todo cerca de 250 mil pessoas remanescentes.
A geografia também é desafiadora para os invasores, já que há muitos morros e irregularidade de terreno, ao contrário do usual cenário plano de Donetsk. A dificuldade é tanta que as forças russas demoraram quase um ano para chegar a Konstantinovka desde sua última conquista importante na região.
A região é uma das quatro anexadas ilegalmente por Putin em setembro de 2022. Delas, ele controla totalmente apenas Lugansk (leste). Além dos talvez 85% de Donetsk, o Kremlin ocupa cerca de 75% de Zaporíjia e Kherson, ambas mais ao sul.
Por ora, a reação do Kremlin à crise dos combustíveis vinha sendo a usual: mais ataques aéreos como o de quinta (2) contra Kiev, que matou 30 pessoas. Nesta sexta, um bombardeio contra a região de Sumi (norte) deixou ao menos três mortos. Na mão inversa, Kiev afirmou ter atingido mais uma refinaria com drones.
Enquanto isso, as negociações para encerrar o conflito seguem travadas, com os Estados Unidos concentrados na questão da guerra com o Irã. O presidente Donald Trump foi criticado na Ucrânia por ter apenas dito que acreditava na paz, ao comentar o bombardeio de Kiev.




