Se a dieta diária de realidade não tivesse sido radicalmente reduzida pelas calorias negativas de memes, trollagens e vídeos no TikTok, os americanos teriam reagido proporcionalmente à gravidade da decisão tomada pela corte máxima do país, no final de abril.
Com 6 votos a 3, os juízes conservadores da Suprema Corte sepultaram a Lei dos Direitos de Voto, um marco dos direitos civis que corrigiu a histórica supressão do voto dos negros, em 1965.
Ao julgar inconstitucional o mapa eleitoral da Louisiana, o tribunal na prática reduziu a representatividade de 1,4 milhão de habitantes negros do estado, mais de 30% da população total. A decisão provocou euforia entre republicanos e abriu a porteira para vários outros estados de maioria conservadora redesenharem distritos e favorecer o partido a apenas seis meses da eleição legislativa de novembro.
Sem o empurrão da Suprema Corte, o Partido Democrata estava a caminho de recapturar a maioria na Câmara, com chances reais de obter maioria apertada no Senado.
Em 2018, o Censo estimou que a população branca não hispânica cairia abaixo de 50% em 2045, uma projeção que há de ser revisada depois da implementação de deportações em massa, somada ao alto número do que o governo chama de “autodeportações”. Entre os habitantes de menos de 18 anos, os brancos não hispânicos já são minoria nos EUA.
Mas é preciso examinar o apetite por manter eleitores longe das urnas além do prisma puramente discriminatório contra os 15% da população que se identificam como negros. A Suprema Corte apenas arrematou décadas de um movimento para calar as grandes cidades. O país rural é curral conservador garantido aos republicanos. Mas a América urbana tende a eleger democratas.
No sistema americano, o eleitor só vota no deputado federal ou senador que se candidatar no seu distrito,
não em todo o estado. No Alabama, um estado vermelho (republicano) que começou a correria para redesenhar seu mapa antes da eleição, as três maiores regiões metropolitanas —Birmingham, Montgomery e Huntsville— elegem democratas. Birmingham vai perder sua vaga de deputado no redesenho.
Na escarlate Louisiana, Nova Orleans é azul (democrata). O mesmo acontece no Tennessee, também redesenhando seu mapa, onde Nashville e Memphis abrigam maioria liberal. Um deputado federal do estado escancarou a intenção: “A política do Tennessee tem sido dominada por comunistas cosmopolitas”, disse Andy Ogles, sugerindo antissemitismo nas entrelinhas.
Esta imposição de poder da minoria sobre a maioria esmaga a autonomia das cidades para se governar em estados vermelhos. Nova York, por exemplo, conseguiu impor restrições legais às atividades do Airbnb depois que proprietários retiraram milhares de apartamentos do mercado, agravando a crônica escassez de moradia na cidade.
As cidades têm maior diversidade racial, mais imigrantes, jovens profissionais, cientistas e acadêmicos. A densidade demográfica urbana oferece uma vitrine mais urgente para a desigualdade econômica. Não há moradores em situação de rua ao longo de estradas vicinais que ligam fazendas. Mas sua presença pode ser notada a passos da entrada de prédios com apartamentos vendidos por US$ 50 milhões, em Manhattan.
O redesenho arbitrário de distritos eleitorais não provoca só a alienação do voto negro. Acaba por calar a voz das cidades.




