O comportamento errático do presidente Donald Trump e seus comentários extremistas nos últimos dias e semanas intensificaram o debate sobre se ele é “louco como uma raposa” ou “simplesmente louco”, que o acompanha no cenário político americano há uma década.
Uma série de declarações desconexas, difíceis de acompanhar e, por vezes, obscenas, coroadas por uma ameaça de que “uma civilização inteira” iria morrer em uma noite, sobre varrer o Irã do mapa, feita na semana passada, além de seu ataque desconcertante ao papa, que ele descreveu como “FRACO no combate ao crime e terrível para a política externa”, no domingo à noite, deixaram muitos com a impressão de um autocrata desequilibrado e enlouquecido pelo poder.
A Casa Branca rejeitou tais avaliações, afirmando que Trump está lúcido e mantendo seus oponentes em alerta. Mas as explosões do presidente levantaram questionamentos sobre a liderança americana em tempos de guerra.
Embora o país já tenha tido presidentes cuja capacidade foi questionada antes —mais recentemente, o octogenário Joe Biden, 83 —nunca nos tempos modernos a estabilidade de um presidente foi tão minuciosamente debatida e com consequências tão profundas.
Democratas que há muito questionam a aptidão psicológica de Trump emitiram um novo coro de apelos para invocar a 25ª emenda e remover o presidente do poder por incapacidade. Mas essa não é uma preocupação expressa apenas por partidários da esquerda, comediantes de programas noturnos ou ainda profissionais de saúde mental fazendo diagnósticos à distância. Agora ela pode ser ouvida entre generais aposentados, diplomatas e autoridades estrangeiras. E, mais surpreendentemente, pode ser ouvida agora na direita política, entre antigos aliados do presidente.
A ex-deputada Marjorie Taylor Greene, republicana da Geórgia que recentemente rompeu com Trump, defendeu o uso da 25ª emenda. Ela disse à CNN que ameaçar destruir a civilização iraniana “não é retórica dura; é insanidade”. Candace Owens, a podcaster de extrema direita, o chamou de “lunático genocida”. Alex Jones, o teórico da conspiração e fundador do canal Infowars, disse que Trump “realmente divaga e parece que o cérebro não está muito bem”.
Alguns dos questionamentos sobre a sanidade de Trump vêm de pessoas que trabalharam com ele e desde então se tornaram críticas. Mesmo antes da postagem sobre a civilização, Ty Cobb, advogado da Casa Branca no primeiro mandato de Trump, disse ao jornalista Jim Acosta que o presidente é “um homem claramente insano” e que sua recente série de postagens beligerantes nas redes sociais durante a madrugada “evidencia o nível de sua insanidade”. Stephanie Grisham, ex-secretária de imprensa da Casa Branca de Trump, escreveu na semana passada que “ele claramente não está bem”.
Trump revidou em uma longa e raivosa publicação nas redes sociais que não exatamente irradiava calma e estabilidade. “Eles têm uma coisa em comum: QI baixo”, escreveu sobre Owens, Jones, Megyn Kelly e Tucker Carlson. “São pessoas estúpidas, eles sabem disso, suas famílias sabem disso, e todo mundo também sabe!” Ele devolveu a acusação de loucura. “São MALUCOS, ENCRENQUEIROS, e dirão qualquer coisa necessária por alguma publicidade ‘gratuita’ e barata.”
A dissidência na direita não se estendeu ao Congresso, onde os legisladores republicanos permanecem publicamente leais ao presidente. Nem chegou ao gabinete, que teria de aprovar qualquer invocação da 25ª emenda, tornando essa ideia inviável. Mas reflete uma inquietação crescente entre americanos que, em pesquisas recentes, têm questionado cada vez mais a aptidão de Trump, presidente mais velho a tomar posse, à medida que ele se aproxima de seu 80º aniversário.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos, em fevereiro, constatou que 61% dos americanos acham que Trump se tornou mais errático com a idade, e apenas 45% dizem que ele é “mentalmente afiado e capaz de lidar com desafios”, abaixo dos 54% em 2023. Aproximadamente metade dos americanos, 49%, considerou Trump velho demais para ser presidente quando questionados em uma pesquisa YouGov em setembro, acima dos 34% em fevereiro de 2024, enquanto apenas 39% disseram que ele não era velho demais.
Os democratas têm insistido nesse ponto nos últimos dias. Trump é “uma pessoa extremamente doente” (senador Chuck Schumer, de Nova York), “descontrolado” e “fora de controle” (deputado Hakeem Jeffries, de Nova York) ou, mais diretamente, “completamente maluco” (deputado Ted Lieu, da Califórnia).
O deputado Jamie Raskin, de Maryland, escreveu ao médico da Casa Branca solicitando uma avaliação devido a “sinais consistentes com demência e declínio cognitivo” e acessos de raiva “cada vez mais incoerentes, voláteis, obscenos, desequilibrados e ameaçadores”.
Os defensores do presidente reagiram. O que os críticos chamam de psicose, eles chamam de estratégia.
“Trump sabe exatamente o que está fazendo”, escreveu Liz Peek, colunista do The Hill e colaboradora da Fox News. “Trump continuará a usar pressão militar e diplomática maximalista (e às vezes ultrajante) em sua campanha para livrar o Oriente Médio da campanha de terror de quase 50 anos do Irã.”
Trump, que em seu primeiro mandato se descreveu como “um gênio muito estável” e regularmente se gabou de passar em testes cognitivos destinados a detectar demência, descartou as críticas sobre seu estado mental quando questionado por um repórter na semana passada.
“Não ouvi isso”, disse ele. “Mas se for o caso, vocês vão ter que ter mais pessoas como eu porque nosso país estava sendo roubado no comércio, em tudo, por muitos anos até eu aparecer. Então, se for o caso, vocês vão ter que ter mais pessoas.”
Questionado a respeito, Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca, escreveu em um email: “A perspicácia do presidente Trump, sua energia incomparável e acessibilidade histórica contrastam fortemente com o que vimos durante os últimos quatro anos”.
Ele argumentou que Biden havia declinado física e mentalmente nesse período e que o New York Times e outros veículos de mídia haviam encoberto isso. (O New York Times cobriu a saúde e a idade de Biden extensivamente em várias reportagens.)
A estabilidade de Trump tem sido uma questão recorrente desde que ele buscou a Presidência pela primeira vez em 2016. Vários psiquiatras e outros profissionais de saúde mental opinaram mesmo sem a oportunidade de avaliá-lo. John F. Kelly, seu chefe de gabinete da Casa Branca que mais tempo serviu no primeiro mandato, chegou a comprar um livro de 27 desses especialistas chamado “The Dangerous Case of Donald Trump” (“O Caso Perigoso de Donald Trump”), em um esforço para entender seu chefe, e chegou à conclusão de que ele era mentalmente doente.
Alguns admiradores de Trump o compararam a Richard Nixon, que defendia o que ele supostamente chamava de “teoria do louco”, instruindo Henry A. Kissinger, seu conselheiro de segurança nacional que liderava as negociações de paz do Vietnã, a dizer aos negociadores que o presidente era instável e imprevisível como ferramenta de barganha para garantir um acordo melhor. Mas, em particular, alguns dos próprios assessores de Nixon não achavam que era tudo uma encenação.
Trump às vezes tentou alavancar sua reputação de louco. “Faça-os pensar que sou louco”, disse a Nikki Haley, sua embaixadora na ONU no primeiro mandato, referindo-se aos norte-coreanos. “Você sabe qual é o segredo de um tuíte realmente bom?”, perguntou certa vez a William P. Barr, então seu procurador-geral. “A quantidade certa de loucura.”
No entanto, Trump disse ao New York Post na semana passada que desta vez, pelo menos, ele não estava fingindo. “Eu estava disposto a fazer isso”, disse sobre sua ameaça de destruir a civilização iraniana.
O foco público no estado mental de Trump vai além do que ocorreu com quase qualquer presidente anterior. “Além de Nixon, nunca houve esse nível de preocupação ao longo do tempo”, disse Julian E. Zelizer, historiador de Princeton e editor de um livro sobre o primeiro mandato de Trump.
De fato, a situação hoje eclipsa até mesmo Richard Nixon. Diferentemente dos anos 1970, “muito disso está se desenrolando em público”, especialmente com as redes sociais e a televisão a cabo, disse Zelizer. E, acrescentou, “como um presidente que naturalmente desconsidera quaisquer limites ou senso de decoro, Trump se sente muito mais livre, até mesmo do que Nixon, para liberar sua raiva interior e agir por impulso”.
Em seu segundo mandato, Trump parece ainda menos contido e mais incoerente às vezes. Ele usa mais palavrões, fala por mais tempo e regularmente faz comentários com base em fantasia em vez de fatos. Ele continua dizendo que seu pai nasceu na Alemanha quando, na verdade, nasceu no Bronx, em Nova York. Ele repete uma história inventada sobre seu tio, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, contando-lhe sobre ter ensinado o terrorista conhecido como Unabomber.
Ele divaga em tangentes estranhas —uma divagação de 8 minutos em uma recepção de Natal sobre cobras venenosas no Peru, uma longa digressão durante uma reunião de gabinete sobre canetas Sharpie, uma interrupção de uma atualização sobre a guerra com o Irã para elogiar as cortinas da Casa Branca.
Ele confundiu a Groenlândia com a Islândia e mais de uma vez se gabou de ter encerrado uma guerra fictícia entre Camboja e Azerbaijão, dois países separados por quase 6.500 quilômetros. (Ele evidentemente quis dizer Armênia e Azerbaijão).
Mesmo antes de atacar o papa Leão 14 no domingo à noite, e depois postar uma imagem de si mesmo como uma figura semelhante a Jesus antes de deletá-la, Trump havia chocado muitos com suas explosões contra críticos.
Ele acusa aqueles que o irritam de sedição, um crime punível com morte. Ele afirmou bizarramente que o diretor de Hollywood Rob Reiner, que foi supostamente esfaqueado até a morte por seu filho, foi morto “devido à raiva que causou” por se opor a Trump. Quando Robert Mueller, o ex-diretor do FBI e procurador especial, morreu, Trump disse: “Bom, estou feliz”.




