O governo de Donald Trump intimou jornalistas do The New York Times após a publicação de uma reportagem que levantou dúvidas sobre a segurança da nova aeronave presidencial doada pelo Qatar.
De acordo com o jornal, os repórteres foram convocados para prestar depoimento em Nova York na próxima quarta (15), no âmbito de uma investigação sobre suposta violação da legislação criminal federal.
Algumas das intimações, ainda segundo o veículo americano, foram entregues por agentes nas residências dos repórteres. “Nossos jornalistas apuram os fatos e defendem o direito do público americano de saber como o governo está funcionando e como o dinheiro dos contribuintes está sendo gasto”, escreveu David McCraw, advogado do New York Times, em comunicado.
“Esse ato descarado deve ser visto como uma tentativa de impedir que a população saiba o que está acontecendo no país, intimidando jornalistas para que deixem de fazer seu trabalho”, acrescentou.
As intimações foram emitidas pelo procurador federal Jay Clayton, indicado recentemente por Trump para o cargo de diretor de Inteligência Nacional. Entre os convocados para prestar depoimento estão os quatro jornalistas que assinaram a reportagem sobre a aeronave publicada na última quarta (8): Julian E. Barnes, Eric Lipton, Tyler Pager e Eric Schmitt.
Segundo o texto, Trump deixou a Turquia a bordo de sua antiga aeronave presidencial em vez do novo Boeing 747-8 doado pelo Qatar, por motivos de segurança. Ainda de acordo com a reportagem, a escolha foi feita após recomendação do Serviço Secreto.
Autoridades disseram, sob a condição de anonimato, que o novo avião não tem alguns recursos de segurança presentes na aeronave mais antiga, incluindo sistemas avançados antimísseis.
Antes de a reportagem ir ao ar, na própria quarta, um funcionário de alto escalão do FBI, a polícia federal americana, contatou o jornal e pediu que o texto não fosse publicado, pois seria uma questão de segurança nacional.
Ainda segundo o New York Times, o representante do FBI se recusou a explicar qual seria o problema de segurança e solicitou que o jornal revelasse as pessoas ouvidas pela reportagem, o que o veículo afirmou ter recusado.
A Casa Branca não se pronunciou sobre a intimação. Neste sábado (11), porém, uma representante do Departamento de Justiça dos EUA escreveu em comunicado que “os repórteres não são os alvos”. “Os alvos são aqueles que vazam informações sigilosas”, disse Emily Covington.
“Nós valorizamos e reconhecemos o importante papel que a imprensa desempenha neste país, mas o Departamento de Justiça também tem um papel fundamental em garantir que as pessoas encarregadas dos segredos da nossa nação façam o que devem fazer com essas informações. Reconhecemos que sempre poderá haver uma tensão natural entre essas funções, mas não vamos ignorar a lei”, completou.
Nos últimos meses, Trump intensificou os ataques contra repórteres e veículos de comunicação, reforçando uma estratégia que transforma a imprensa em inimiga preferencial e ajuda a mobilizar sua base de apoiadores, de modo a combater a queda de popularidade.
Em junho, o republicano atacou repórteres de diferentes veículos e interrompeu uma entrevista de forma abrupta. Também no mês passado, comentaristas que se apresentam como independentes encontraram seus nomes em uma seção intitulada “Influenciadores de Esquerda” dentro da página “Infratores da Mídia“, hospedada no site da Casa Branca, o que motivou novas críticas relacionadas à liberdade de expressão.
Os processos contra profissionais e veículos da imprensa também não são novidade. Em 2025, Trump moveu uma ação contra o The New York Times sob o argumento de difamação.
O jornal também já entrou na Justiça contra o presidente. Em dezembro, o veículo processou o Departamento de Defesa americano após a imposição de restrições a repórteres responsáveis pela cobertura das Forças Armadas.




