O discurso do presidente Donald Trump em horário nobre na última quinta-feira (16) tinha a intenção de reforçar suas mentiras persistentes de que a eleição de 2020 foi roubada dele e se apoiou fortemente em alegações recicladas de que Pequim tentou pender a balança contra ele.
Mas um conjunto de documentos de inteligência que Trump tornou públicos na esperança de que sustentassem suas afirmações, na verdade, apresentou argumentos mais fortes de que outro país —a Rússia— havia interferido na disputa.
Trump, no entanto, mal mencionou a Rússia durante seu discurso de 25 minutos, mantendo sua aversão de longa data em admitir o que investigadores criminais e do Congresso vêm dizendo há anos: autoridades russas, incluindo o presidente Vladimir Putin, trabalharam para prejudicar os adversários de Trump tanto em suas campanhas de 2016 quanto em 2020.
“Ele esquece ou simplesmente omite que o maior país que tenta influenciar todas as eleições é a Rússia”, disse o senador Mark Warner, principal democrata no Comitê de Inteligência do Senado, no domingo, durante participação no programa “Face the Nation” da CBS. “Documentamos isso repetidas vezes.”
A aparição de Moscou nos documentos recém-desclassificados —e o relativo silêncio de Trump sobre o país durante seu pronunciamento— foi apenas mais um lembrete de como o presidente frequentemente tentou distorcer a inteligência americana para sustentar suas falsidades sobre eleições nas quais concorreu.
Esses esforços se tornaram mais preocupantes agora que Trump instalou aliados inexperientes e lhes deu supervisão sobre as agências de inteligência dos EUA. Bill Pulte, um funcionário da área de habitação, está servindo como diretor interino de inteligência nacional até que Jay Clayton, o procurador federal no distrito de Manhattan, em Nova York, seja confirmado.
Os documentos que Trump desclassificou na semana passada não foram os primeiros a destacar os esforços dos russos para influenciar as eleições americanas.
Em muitos casos, os novos arquivos refletem informações que foram tornadas públicas cinco ou seis anos atrás, seja em divulgações anteriores das agências de inteligência americanas ou em declarações públicas de altos funcionários da primeira administração Trump.
A maioria das alegações sobre interferência eleitoral russa na eleição de 2020 estava contida em uma análise do Conselho Nacional de Inteligência datada de 19 de agosto daquele ano, menos de três meses antes de Trump perder para Joe Biden em uma derrota que ele se recusa a reconhecer até hoje.
A análise sustentava que Putin e altos funcionários de seu governo supervisionaram esforços para prejudicar a campanha de Biden.
Além disso, dizia o documento, os russos conspiraram com funcionários e “outras pessoas proeminentes” nos Estados Unidos para “orquestrar um escândalo de corrupção de alto perfil” implicando Biden e o Partido Democrata no auge da campanha. Republicanos acusaram Biden de ter se envolvido, enquanto vice-presidente, em negócios corruptos com seu filho Hunter e a empresa ucraniana de energia Burisma.
“O objetivo deles é derrotar o ex-vice-presidente” —Biden— “e garantir a vitória do presidente”, concluiu o conselho de inteligência, referindo-se a Trump.
A mesma avaliação também deixou claro que o Irã havia tomado algumas medidas mais desajeitadas, mas ainda assim bastante agressivas, para prejudicar as perspectivas eleitorais de Trump, ações que o então líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, muito provavelmente havia ordenado.
Mas Trump teve pouco a dizer na noite de quinta-feira sobre a interferência eleitoral iraniana, embora os Estados Unidos ainda estejam na guerra no Irã. Em vez disso, ele destacou as ações relativamente discretas da China, que ele afirmou terem sido escondidas dele e do povo americano.
As alegações envolvendo a Burisma estão entre os esforços mais duradouros para difamar Joe Biden. Elas se concentram em acusações de que, enquanto servia na Casa Branca sob o presidente Barack Obama, ele usou seu poder para atrapalhar uma investigação de corrupção contra a empresa para proteger Hunter Biden, que fazia parte de seu conselho de administração.
Em determinado momento, um informante do FBI, Alexander Smirnov, alegou que o oligarca dono da Burisma havia pago 5 milhões de dólares tanto a Biden quanto a seu filho. Mas Smirnov acabou sendo acusado de mentir sobre os supostos subornos e admitiu que havia recebido informações da inteligência russa.
Uma análise da comunidade de inteligência americana de março de 2021 constatou que intermediários ligados à inteligência russa haviam promovido histórias falsas sobre a família Biden “para organizações de mídia americanas, funcionários americanos e indivíduos proeminentes nos EUA, incluindo alguns próximos ao ex-presidente Trump e sua administração”.
Procuradores federais também empreenderam uma investigação ampla sobre se autoridades ucranianas haviam ajudado a orquestrar um plano para prejudicar a campanha de Biden em 2020, inclusive usando Rudy Giuliani, ex-advogado pessoal de Trump, para ajudar a espalhar suas alegações enganosas. Giuliani nunca foi indiciado na investigação.
As campanhas de desinformação da Rússia, segundo funcionários americanos, incluíram a promoção de acusações de corrupção entre a família Biden e a Ucrânia —bem como uma teoria conspiratória de que a Ucrânia, e não a Rússia, interferiu na campanha de Trump em 2016 contra Hillary Clinton.
Agentes alinhados à Rússia se reuniram com pessoas ligadas à administração Trump para disseminar ainda mais essas narrativas.
E essa dinâmica desempenhou um papel no primeiro impeachment de Trump, quando ele pressionou o recém-eleito presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, a investigar a família Biden e depois reteve financiamento militar de que o país precisava em seu conflito em andamento com separatistas apoiados pela Rússia.
Mesmo depois que Trump deixou o cargo em 2021, seus aliados no Congresso continuaram examinando as alegações sobre Biden e a Ucrânia, mas acabaram de mãos vazias. Em 2023, republicanos da Câmara reconheceram que não haviam descoberto material incriminador sobre Biden, apesar de suas frequentes insinuações de que ele e sua família haviam se envolvido em conduta criminosa e corrupção.




