Donald Trump foi à TV na noite de quinta para anunciar a desclassificação de documentos que, segundo ele, provariam a interferência da China na eleição que perdeu em 2020. O presidente falou na “maior violação de dados eleitorais da história”, prometeu punir os responsáveis por um suposto encobrimento e liberou uma pasta zipada com 23 arquivos com as supostas provas de tal acusação.
Passei todos os PDFs (a maioria com grandes trechos ocultados) a limpo e encontrei uma história bem menos espetacular do que a retratada pelo presidente americano.
Os documentos mostram que a China coletou dados de eleitores de 18 estados e analisou a opinião pública americana, mas não há uma linha sequer sobre tentativas de adulterar os resultados.
Boa parte do material publicado com fanfarra admite que a informação era pública, comprável no mercado de dados ou já vazada tempos antes. A despeito da Casa Branca repetir várias vezes que, com isso, os resultados em 2020 foram comprometidos, a acusação não se sustenta diante das próprias evidências apresentadas.
O relato mais grave do pacote é o mais frágil. Um informe do escritório do FBI em Albany afirma que a China teria fabricado carteiras de motorista falsas usando endereços coletados por meio de cadastros no TikTok para gerar dezenas de milhares de votos por correio a favor de Biden.
Mas a própria página classifica a fonte da informação como “de acesso indireto” e “sem histórico confiável”. O próprio FBI adiciona no documento que a rede social chinesa jamais coletou tal informação de seus usuários. Em resumo, ninguém, nem o presidente nem a comunidade de inteligência dos EUA, consegue explicar como Pequim teria obtido tal banco de dados crucial.
Mesmo assim, nem tudo ali é falso e há espaço legítimo para questionamentos, não necessariamente sobre a participação chinesa em um esquema de fraude, mas na reação de alguns órgãos americanos sobre tal possibilidade.
Em um email parcialmente revelado, por exemplo, um oficial da área cibernética queria produzir um relatório mais duro sobre o que estavam fazendo os chineses durante a campanha presidencial, enquanto a CIA, o FBI e a inteligência do Departamento de Estado preferiram separar a influência sobre políticas e percepções e a interferência no voto.
O paralelo que o presidente evita é o que dá sentido a tudo, porque a mesma comunidade que descartou a participação da China em um esquema coordenado concluiu com um alto grau de confiança que a Rússia operou para manchar Biden e favorecer o próprio Trump, com aval pessoal de Putin. Um caso tem lastro sólido, o outro se apoia em boato. Adivinha sobre qual deles Trump decidiu falar agora?
Quem paga a conta dessa manobra é a relação entre os dois países, num momento em que Xi Jinping deve desembarcar nos Estados Unidos em setembro para retribuir a visita de Estado de Trump a Pequim em maio.
Ressuscitar um caso encerrado sobre uma base que a própria inteligência tratou com ceticismo contamina a difícil negociação sino-americana e deixa o terreno cada vez mais imprevisível não só para eles, mas para o planeta inteiro.




