Um novo Castro ou uma nova Cuba? – 11/07/2026 – Sylvia Colombo

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A Revolução Cubana talvez tenha chegado a um de seus momentos mais paradoxais. Depois de mais de seis décadas prometendo acabar com privilégios, oligarquias e dinastias familiares, o regime resolveu apresentar ao mundo um novo Castro. Não é Fidel, obviamente (1926-2016). Nem Raúl (hoje aposentado).

É Raúl Guillermo Rodríguez Castro, também conhecido como “Raulito” ou “O Caranguejo”, neto favorito do ex-líder, que começa a sair das sombras justamente quando o país enfrenta sua mais grave crise econômica e humanitária desde o chamado Período Especial, em que o colapso da aliada União Soviética, nos anos de 1990, levou à escassez de recursos na ilha.

Enquanto as negociações conduzidas pelos canais diplomáticos tradicionais não avançam, com várias derrotas do chanceler Bruno Rodríguez, Havana parece apostar em um interlocutor diferente.

Sem cargo público, mas com acesso direto ao círculo mais íntimo do poder, Raulito passou a oferecer-se para negociar com Washington e defender uma nova etapa nas relações entre Cuba e Estados Unidos.

Uma ampla entrevista concedida ao USA Today, produzida em parceria com organizações independentes, acabou revelando muito mais do que Raulito provavelmente pretendia. O neto favorito quis apresentar-se como um interlocutor moderno para Washington.

Há, porém, uma ausência que chama a atenção. Na longa entrevista, Raulito fala sobre investimentos, reformas econômicas, turismo, prosperidade e normalização das relações com os EUA. Mas nada diz sobre os presos políticos, a repressão aos dissidentes, a falta de eleições livres ou as liberdades civis. Como se a crise cubana fosse apenas econômica.

Aos 42 anos, Raulito veste-se como um executivo global, circula em jatinhos particulares, frequenta restaurantes inacessíveis para a maioria dos cubanos e defende investimentos, prosperidade e “relações civilizadas” com Washington. É uma imagem muito diferente da dos velhos comandantes de uniforme verde-oliva.

O verdadeiro paradoxo está justamente aí. Raulito procura vestir a linguagem da modernização. Mas continua sendo um herdeiro da velha “nomenklatura” cubana, a pequena elite ligada às Forças Armadas e ao Partido Comunista que concentra o poder político e econômico da ilha há décadas. É difícil conciliar esse discurso de modernização com um regime que continua prendendo opositores, restringindo liberdades e impedindo eleições livres.

Nas redes sociais e no debate público, Raulito vem sendo apelidado de “Delcy cubana”. Para explicar: seria o neto de Raúl desempenhando um papel semelhante ao de Delcy Rodríguez na Venezuela —o de oferecer uma face mais palatável de um regime profundamente desgastado, sem alterar sua natureza.

Washington talvez precise conversar com Raulito. Diplomacia se faz com quem efetivamente concentra influência. Outra coisa, porém, é confundir um novo interlocutor com um novo regime.

Até agora, Raulito oferece uma linguagem diferente, um estilo mais cosmopolita e um discurso voltado para investimentos e reformas econômicas. Mas permanece silencioso diante das questões que realmente definem a crise cubana.

A revolução apresentou ao mundo um novo Castro. O que os cubanos continuam esperando é uma nova Cuba.


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