Um desastre natural nunca vem sozinho. Além de resgatar vítimas do dano material e físico, as autoridades devem lidar com o fracasso e com a fragilidade de seus sistemas de resgate —como é o caso agora com a Venezuela. Os dias e semanas depois dessas tragédias trazem outros problemas, os políticos, e estes podem abalar governos.
Na própria Venezuela, um terremoto em 1812 atingiu Caracas em pleno processo de independência. Os líderes monarquistas e parte do clero interpretaram a tragédia como um castigo divino pela rebelião contra a Coroa espanhola. A resposta dos independentistas liderados por Simón Bolívar foi transformar o desastre em símbolo de resistência, rejeitando a leitura religiosa e incorporando o episódio ao discurso da emancipação.
Outro exemplo é o terremoto que atingiu a Nicarágua em 1972 e que contribuiu para desmoralizar a ditadura dos Somoza e acelerar o avanço da Frente Sandinista. O terremoto destruiu o centro de Manágua.
A ajuda internacional foi enorme, mas grande parte dos recursos foi desviada pela família Somoza. As denúncias de corrupção provocaram indignação entre empresários, setores da Igreja, parte da classe média e da elite econômica, grupos que até então sustentavam a ditadura. Muitos desses apoios migraram para a oposição, e diversos historiadores consideram que a tragédia acelerou o processo que culminaria com a queda da dinastia Somoza.
Já o terremoto do México, em 1985, talvez seja o caso mais estudado. A resposta lenta do governo levou moradores, estudantes, sindicatos e organizações civis a coordenarem os resgates. Foi nesse contexto que surgiram os Topos de Tlatelolco, brigada voluntária de resgate que se tornaria símbolo da ação cidadã diante da ausência do Estado. A mobilização fortaleceu uma sociedade civil que ganhou protagonismo inédito e contribuiu para enfraquecer o monopólio político do partido que governava o país havia sete décadas.
Em El Salvador, terremotos sucessivos em 2001 atingiram um país que ainda se recuperava da guerra civil encerrada apenas nove anos antes. Cerca de um quarto da população foi afetada. A tragédia intensificou a migração e levou os Estados Unidos a concederem o status de proteção temporária aos salvadorenhos que já viviam em seu território. A medida foi renovada durante décadas. Hoje, sob Donald Trump, estão em risco.
O Haiti viveu um drama gigantesco em 2010, quando um terremoto devastou Porto Príncipe, matando centenas de milhares de pessoas. Mais pobre da América Latina e do Caribe e situado sobre uma das regiões sísmicas mais ativas do continente, o país reúne há décadas uma combinação de vulnerabilidade geológica, pobreza extrema e instituições frágeis.
O contraponto a essa sequência de tragédias é o Chile. Um dos países mais sísmicos do planeta, convive há décadas com terremotos de grande intensidade e, justamente por isso, transformou a prevenção em política de Estado. Normas rigorosas de construção, sistemas de monitoramento, protocolos de emergência, forças de resgate treinadas e uma população acostumada a reagir rapidamente reduziram o número de vítimas em desastres que poderiam ter consequências muito mais graves.
O caso chileno demonstra que a dimensão política de um desastre começa muito antes, com investimentos em prevenção, planejamento urbano, educação da população e fortalecimento das instituições. Ou seja, a forma como um país enfrenta um terremoto também é resultado de decisões políticas tomadas ao longo de décadas.




