Há pelo menos dois anos, Chen (nome fictício), 35, visita regularmente a feira de casamentos no parque Zhongshan, em Pequim, para encontrar um amor. Acompanhado do pai, conversa com pretendentes e mães representando as filhas, mas até agora não conseguiu um encontro —o que, para ele, não é um problema. Continua tentando.
Passeia pelo local sempre de olho nos currículos, que funcionam como cartões de visita. Nome, idade, peso e altura, entre outras informações, permitem a primeira triagem.
Quando interessado, Chen troca algumas palavras e, quem sabe, obtém um número de celular. O pai ajuda nas conexões. Alto, com renda garantida, imóvel e em uma idade considerada aceitável, atrai olhares.
Um deles foi de uma mãe que representava a filha. Após uma curta conversa e troca de fotos, saiu de lá com o contato da mãe. Saldo positivo. Agora é torcer para que a ponte dê certo e que consiga agendar um encontro.
Como um Tinder analógico, as feiras de casamento na China se tornaram a tacada final daqueles que não encontraram um parceiro. Nelas, pais preocupados com o futuro dos filhos, casamenteiros profissionais e os próprios pretendentes trocam currículos para articular um encontro que, talvez, um dia vire casamento.
Embora soe como tradição antiga, o fenômeno surgiu no início dos anos 2000 com pais que buscavam um par para seus filhos. Está também intensamente ligado às transformações sociais que ocorreram na China em decorrência da política do filho único.
Na época, chegava à idade esperada para o casamento a primeira geração nascida após a determinação, enquanto seus pais envelheciam diante das incertezas causadas pela abertura econômica do país.
A pesquisadora Peidong Sun, professora do departamento de história da Universidade Cornell (EUA), explica que a política criou famílias que depositaram todas as suas expectativas em um único filho. Sua pesquisa mostrou que os pais sentem que têm o dever de auxiliar na busca pelo matrimônio.
“Hoje, os pais estão profundamente envolvidos no casamento dos filhos porque têm apenas um filho, de quem dependem tanto para sua realização emocional quanto, em certa medida, para sua segurança futura”, diz ela.
Estudos apontam que muitos dos candidatos são frutos de uma geração que priorizou a educação dos filhos, o que os levou a casamentos tardios, uma vez que o matrimônio era visto como a etapa final do projeto familiar.
Ser filho único também é elemento de destaque nos currículos. Sun afirma que isso ocorre porque é um dado que carrega, sozinho, muitas informações sobre a vida do pretendente. Indica, por exemplo, as responsabilidades nos cuidados de idosos, uma vez que se espera que o filho assuma o dever com o envelhecimento dos pais, além de estar intimamente ligado aos recursos familiares, como moradia e herança, que são preocupações centrais nas negociações matrimoniais da China urbana.
“Por fim, muitas vezes funciona como um marcador implícito de posição de classe, especialmente em contextos urbanos, onde filhos únicos tendem a vir de famílias que investiram pesadamente em educação e mobilidade ascendente”, diz.
As informações impressas nos currículos seguem um padrão e criam um cenário da vida pessoal e profissional do pretendente. A lista inclui idade, altura, peso, escolaridade, salário, imóvel, carro e estado de saúde. Currículos apresentados por casamenteiros apresentam fotos, enquanto muitos pais escondem o nome do candidato, pois nem sempre têm autorização dos filhos para estar ali.
Outro ativo importante é o “hukou”, o registro de residência que facilita o acesso a serviços públicos de saúde e educação, por exemplo, que dependem prioritariamente do nascimento. Na feira de Zhongshan, aqueles que possuíam registro em Pequim davam destaque à informação.
Um estudo de 2022 publicado em periódico da Universidade de Cambridge (Inglaterra) afirma que, além da facilidade administrativa, famílias argumentam que origens diferentes trazem dificuldades de cooperação e convivência em costumes e até em regras variadas para jogos tradicionais, como o mahjong.
O trabalho mostra ainda que a intensa pressão para o casamento é mais sentida pelas mulheres, que, no encontro do parque Zhongshan, eram frequentemente representadas por familiares.
Embora mire principalmente os pais e pretendentes, o evento também virou negócio. Aqueles que não querem aparecer ou não têm tempo para isso pagam taxas aos casamenteiros profissionais para ter seu currículo exposto por horas.
Wang Fulu, 47, que se autodefine como um cientista do casamento, oferece até um serviço a mais. Quando há compatibilidade entre os próprios clientes, ele atua como cupido e coloca os pretendentes em contato. Uma taxa de 300 yuans chineses (cerca de R$ 215) é o valor cobrado pelo serviço, que o casamenteiro oferece há cerca de seis anos.
“O mais importante é a ideologia, se eles são compatíveis”, avalia.
Segundo o casamenteiro, outro aspecto importante é a idade. O seu cardápio é variado, com jovens no início dos 20 e adultos na casa dos 50.
Seu trabalho, afirma Wang, fica mais fácil quando o pretendente tem até 30. Depois disso, diz ele, “ficam velhos demais”.




