Viramos bode expiatório, diz imigrante no Chile – 18/04/2026 – Mundo

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“É como se o venezuelano tivesse sido declarado uma praga indesejada”, afirma a imigrante venezuelana Andrea (nome fictício), 34, que vive no Chile há quatro anos. Ela descreve à Folha um clima de hostilidade contra estrangeiros que se aprofundou nos últimos anos, culminando com a corrida eleitoral e a eleição de José Antônio Kast à Presidência.

A ascensão do líder de ultradireita foi marcada por um discurso contra a imigração irregular, tema central de sua campanha e agora de seu governo. Com pouco mais de um mês no cargo, mandou construir muros na fronteira e tem prometido expulsar pessoas sem documentos.

Andrea, que pediu que seu nome fosse alterado por estar com a sua situação migratória irregular, saiu da Venezuela em 2018. Formada em direito e filha de funcionário público, ela diz que a família era perseguida e faltava dinheiro para comer. “Tínhamos que decidir se íamos almoçar, tomar café da manhã ou jantar —praticamente fazíamos só uma refeição por dia.”

Tentou a vida primeiro no Peru, antes de seguir para o Chile. “Há quatro anos, quando cheguei a Santiago, a situação social era diferente, e os venezuelanos eram melhor recebidos”, diz.

Desde então, ela acumula trabalhos informais enquanto tenta regularizar sua situação. Hoje, mãe solo de uma menina de três anos, diz viver sob constante apreensão e teme que seja separada de sua filha.

Cruzei a fronteira Chile-Peru em 2022. Foi uma experiência intensa, tanto emocional quanto fisicamente. Viajei sozinha com uma espécie de agência, porque, desde o início do fenômeno migratório [de venezulanos], esses serviços passaram a ser oferecidos. Só depois você entende o quão duro é esse processo.

Você enfrenta uma série de riscos sobre os quais não tem controle algum, e só entende a gravidade quando está no meio da travessia. Cruzei a fronteira de noite. É um frio implacável, o terreno é muito difícil para caminhar, a pressão do ar afeta bastante. Vi gente desmaiar, passar mal, perder todos os seus pertences, além da angústia e do terror.

“Será que vão me pegar?” Você começa a questionar suas escolhas e fica à mercê. No meu caso, foram duas horas e meia caminhando, mas há conhecidos que caminharam um dia inteiro, que se perderam no deserto. São histórias muito duras.

Por sorte, tenho trabalhado desde o terceiro dia em que pisei em Santiago. Mas, quando você está em situação migratória irregular, está exposto a muita instabilidade, não há garantias. Tem que aceitar qualquer tipo de trabalho. Não pode ficar doente porque, já que sabe que, se faltar, no dia seguinte você pode ser demitida.

Não há para onde recorrer ou reclamar porque, para o sistema, você não existe. Trabalho desde os 17 anos, sou formada, mas recebi muitas recusas por não ter documentos. É preciso ter muita força de vontade e resiliência.

Com o discurso do governo atual, ficou mais difícil encontrar trabalho onde você seja valorizado. Já surgiu a conversa com meu chefe sobre o que fazer caso haja uma fiscalização. Eles não querem me demitir, mas não sabem como proceder. Isso pesa muito psicologicamente. Vivo em constante incerteza: será hoje? Amanhã? [Os agentes da imigração] vão aparecer ou não?

Dá para perceber na rua a angústia do imigrante por não saber o que vai acontecer. Você evita até falar em lugares públicos, porque te olham torto. Se ouvir comentários dolorosos, não pode dizer nada.

Além disso, o imigrante é o foco das notícias. Ultimamente no Chile, todos os problemas do país são atribuídos à imigração irregular —mas mais especificamente ao imigrante venezuelano. É como se o venezuelano tivesse sido declarado uma praga indesejada.

A situação hoje está mais complicada do que há quatro anos. Não recomendo a ninguém que venha. Quem chega é porque está fugindo de uma situação e vê isso como uma saída. Mas, honestamente, em abril de 2026, isso parece as portas do inferno.

Quem está aqui segue resistindo. Vamos ver para onde a corrente nos leva, porque são processos políticos e administrativos que não dependem de nós. Viramos um bode expiatório para justificar os problemas do país.

Não vejo isso sendo resolvido tão cedo. O discurso político atual está cercado de discriminação, xenofobia e ódio. O imigrante se tornou, praticamente, uma pessoa indesejada no Chile.

Tenho tido ataques de pânico e ansiedade, mudanças bruscas de humor. Chega um momento em que não aguento e choro. É desgastante acordar pensando no que vai acontecer amanhã.

Tenho uma filha de três anos. Ela é chilena e, mesmo assim, nunca consegui uma vaga em creche pública [por causa da falta de documentos]. Pago tudo de forma privada. Tenho medo por ela também.

Mudar para outro país também não é simples. O venezuelano enfrenta um grande problema de documentação. Muitas vezes não temos embaixadas nos países, tirar um passaporte é extremamente difícil e caro. Como pagar isso se você precisa sobreviver?

E não é apenas ir para outro lugar. Isso pode significar imigrar novamente de forma irregular, entrando num ciclo sem fim. Na prática, endurecer as políticas só fortalece as máfias [que atuam nas fronteiras], porque é um negócio lucrativo.



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