“Se eu fosse escrever cada humilhação a qual fui submetida por conta da cor da minha pele, em diferentes continentes, incluindo o meu próprio. Se eu fosse mencionar as revistas aleatórias em aeroportos, apesar de ter passado por todos os processos de visto. Se. Eu escreveria muitos livros.”
Zukiswa Wanner, autora do trecho acima, escreveu mesmo muitos livros. Nascida na Zâmbia, em 1976, filha de uma zimbabuana e de um sul-africano exilados, acaba de se mudar do Quênia para a África do Sul.
No último sábado (16), mediei uma conversa com a autora no Festival Literário de Araxá, em Minas Gerais.
Sua mãe, ativista da então Rodésia, tentou atravessar ilegalmente a fronteira para que os avós conhecessem a neta. Foram presas quando Zukiswa tinha dois anos. Décadas depois, ela ainda descreve o terror de ver uma policial branca interrogando sua mãe enquanto ela chorava no colo.
O trauma racial, em sua obra, parece-me inseparável do trauma autoritário. E a escrita, segundo me respondeu, é, sim, uma forma de elaboração do trauma, apesar de não ser a principal motivação de sua literatura. Ela escreve porque sabe que a literatura muda o mundo.
Em “Madames”, romance publicado há 20 anos e lançado no Brasil apenas em 2024 pela Ímã Editorial, a narradora, Thandi, mulher negra em ascensão, decide contratar uma empregada doméstica branca. A decisão expõe a hierarquia racial herdada do apartheid e reverbera muitos conflitos.
“Eu tinha certeza de que o livro seria compreendido no Brasil”, disse Zukiswa. “A África do Sul se acha o arco-íris da felicidade, assim como aqui por muito tempo se acreditava na democracia racial.”
Mas sabemos quem costuma servir e quem costuma mandar nos dois países.
Na relação entre as duas amigas negras e uma branca, Zukiswa expõe as desigualdades persistentes em nossas democracias e em uma África do Sul nem tão reconciliada.
Em “Homens do Sul”, ao narrar tensões entre africanos vivendo em Joanesburgo, Zukiswa desmonta a ideia de uma África homogênea e expõe a xenofobia. O romance também investiga masculinidades que se dizem progressistas, mas são incapazes de alterar práticas íntimas de poder.
Em Araxá, falamos sobre a Palestina. Sobre quando a autora se sentiu convocada a fazer mais. “Essa indignação cheia de passividade, como se não pudéssemos mudar nada, é o que se espera de nós. Por isso precisamos nos levantar”, disse.
Ela foi uma das cerca de 500 pessoas que participaram da maior flotilha já organizada rumo a Gaza. Ela e o brasileiro Thiago Ávila estiveram entre as cerca de 200 pessoas presas pelo Estado de Israel. Em “Diário de uma Flotilha por Gaza”, publicado no Brasil pela Editora Periferias, relata desde os dias em Túnis, antes da confirmação do embarque, até os cinco dias em que esteve presa.
Zukiswa já havia publicado “Relatos da Vida Palestina sob Estado de Apartheid”. Sul-africana, o uso do termo apartheid não é leviano. Ela explica as semelhanças nos mecanismos de segregação territorial, controle militar e desigualdade jurídica. “Os sul-africanos que viveram o apartheid e estiveram na Palestina dizem como o apartheid lá é muito pior”, disse Zukiswa em Araxá.




