Desfile militar em Paris marca rearmamento europeu – 16/07/2026 – Mundo

Desfile militar em Paris marca rearmamento europeu - 16/07/2026 -


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Neste 14 de julho, o desfile militar em Paris reuniu quase 6.700 soldados a pé, 98 aviões, 31 helicópteros e 315 veículos, a maior mobilização já vista nos Champs-Élysées. Marcharam contingentes de 35 países da Coalition of the Willing, grupo que o Reino Unido e a França criaram em março de 2025, seguidos por 25 militares ucranianos, aplaudidos pelo presidente ucraniano Volodimir Zelenski.

Nas tribunas, ao lado do presidente francês Emmanuel Macron, sentaram-se Zelenski e outros 24 chefes de Estado e de governo, entre eles o chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o primeiro-ministro polonês Donald Tusk.

A data comemora a Revolução Francesa desde 1880 e sempre teve componente militar. Este ano, o Eliseu descreveu o desfile como símbolo do “rearmamento da França”, da “autonomia estratégica da França” e do “despertar estratégico europeu” —expressão que resume o clima europeu: a certeza de que a segurança do continente não pode mais depender só de Washington.

O desfile veio um dia depois da nova cúpula da “Coalizão dos Voluntários”, no Invalides, onde os 37 países do grupo avançaram o plano de uma força multinacional para a Ucrânia e Macron anunciou a compra de 16 caças Rafale por Kiev. A saída da Bulgária, anunciada pelo premiê Rumen Radev, visto como próximo do Kremlin, foi a única fissura.

O prazo em disputa

Ao longo dos últimos meses, o risco de um confronto direto com a Rússia deixou de ser um debate hipotético para virar cálculo oficial em capitais europeias. Os serviços de inteligência divergem em relação ao prazo, mas convergem na direção: o secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Mark Rutte, citou um horizonte de cinco anos para um ataque russo a um país aliado; a Alemanha fala em 2028 ou 2029; a inteligência holandesa é mais pessimista e vê a Rússia pronta para testar a aliança já um ano após o fim da guerra. Um ataque direto, porém, segue visto como pouco provável no curto prazo: o presidente russo Vladimir Putin evitou o confronto direto com a Otan durante toda a guerra.

A ameaça mais concreta hoje tem outro formato. “No curto prazo haverá ataques híbridos à Europa. Vemos isso quase diariamente”, disse o presidente finlandês Alexander Stubb.

O alerta ganhou contorno mais específico nesta semana: o presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda, disse que serviços de inteligência apontam uma possível provocação russa contra infraestrutura crítica —de energia ou transporte— nos países bálticos ou na Polônia, sem local ou data definidos: “operações cinéticas, não em grande escala, mas bem direcionadas, muito provavelmente contra infraestrutura crítica”.

É a mesma leitura do primeiro-ministro polonês Donald Tusk, que fala em risco de “escalada nas próximas semanas e meses”, e da inteligência da Letônia, que já alertava, no fim de junho, para uma provocação pontual destinada a pressionar os países da linha de frente a abandonar o apoio à Ucrânia. Na Itália, o ministro da Defesa Guido Crosetto falou em “conflito híbrido diário” após a prisão de dois italianos suspeitos de espionagem para Moscou.

O general Fabien Mandon, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, assustou muita gente em novembro ao dizer que a França precisa se preparar para “um choque em três ou quatro anos”, perdendo soldados em combate e sofrendo economicamente com a prioridade dada à defesa.

Um relógio atrasado

Só que o relógio do rearmamento não bate no mesmo ritmo do relógio da ameaça. O plano europeu Readiness 2030, que mobiliza até 800 bilhões de euros, só promete fechar as lacunas de capacidade até o fim da década; a meta da Otan de elevar o gasto militar a 3,5% do PIB vale para 2035 —anos depois da janela de risco mais citada pelos serviços de inteligência. Países que baniram o serviço militar o reintroduzem: a Alemanha quer recrutar 20 mil soldados até 2026 por adesão voluntária; a França lança neste verão um serviço voluntário de dez meses, com meta de 50 mil vagas anuais em 2035.

Para a pesquisadora Céline Marangé, do Institut de Recherche Stratégique de l’École Militaire (instituto de pesquisa estratégica da escola militar francesa), o que está em jogo não é só uma fronteira. “O que está verdadeiramente em risco é o futuro da democracia liberal europeia”, disse ela ao Le Monde.

Frase da Semana



Tem, além disso, um elenco de altíssimo nível. Isso sim, sem franceses



A França não tem cor de pele. Qualquer afirmação em contrário é burrice, racismo, ou as duas coisas


O sinal chinês

Enquanto o mercado olha para o estreito de Hormuz e o petróleo na guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, a China deu seu sinal de alerta: o PIB cresceu 4,3% no segundo trimestre ante igual período de 2025 —a leitura mais fraca desde os anos 1990, tirando a pandemia— abaixo da meta oficial de 4,5% a 5% ao ano.

As exportações seguem como motor, com alta de 27% em junho, mas escondem fraqueza antiga: o investimento em ativos fixos caiu 5,7% no semestre e o varejo cresceu só 1%. A guerra no Irã tem efeito ambíguo por lá, encareceu combustíveis e esfriou o consumo, mas ajudou a tirar o país de mais de três anos de deflação quase contínua. A China pode se tornar um problema gigantesco para a economia mundial no médio prazo.


No radar

O que monitorar até a próxima quarta-feira (22)

  • Guerra no Irã — o cessar-fogo com os EUA, firmado em 17 de junho, foi declarado “morto” por Trump nesta semana. O Irã contesta a reabertura do estreito de Ormuz, palco de ataques a navios.
  • Guerra na Ucrânia — Trump repete que Putin e Zelenski vão se reunir “em breve”, sem data marcada; Moscou defende sediar o encontro, ideia rejeitada por Washington. Os bombardeios em Kiev e Moscou continuam.

Fora da Pauta

“Canhões de Agosto” (The Guns of August, 1962), de Barbara Tuchman — publicado no Brasil, hoje só em sebos e PDFs pela internet, é um clássico vencedor do Pulitzer sobre como a Europa foi parar na Primeira Guerra Mundial, entre cronogramas de mobilização que ninguém mais sabia parar. Kennedy teria recorrido ao livro durante a crise dos mísseis em Cuba.



Fonte CNN BRASIL

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