Caso a votação deste domingo (31) confirme as pesquisas de intenções de voto, a Colômbia voltará às urnas no dia 21 de junho para decidir entre dois projetos opostos: o de Iván Cepeda, presidenciável aliado de Gustavo Petro e filho de um senador assassinado na guerra civil, e Abelardo de la Espriella, advogado estreante na política e rosto da ultradireita no país.
Para o Brasil, o primeiro representaria a manutenção de um aliado importante em meio à onda conservadora na América do Sul. Já o segundo poderia ser um obstáculo aos planos do governo Lula (PT) relacionados a amazônia, combate ao crime na fronteira e integração regional.
Diferentemente do que ocorreu em seus mandatos anteriores, a atual passagem do petista pelo Palácio do Planalto não é favorecida por uma onda rosa, como ficou conhecido o fenômeno de ascensão de governos de esquerda na América Latina nos anos 2000.
Após as vitórias de Rodrigo Paz na Bolívia, em outubro, e José Antonio Kast no Chile, em dezembro, a Colômbia era o principal aliado do Brasil na região. Além de Petro, há políticos de esquerda no Suriname e na Guiana, países pouco relevantes na política externa do Brasil; na Venezuela, que enfrenta seus próprios problemas internos após anos de ditadura e, mais recentemente, de uma intervenção americana; e Uruguai.
Foi com Petro, por exemplo, que Lula liderou a reorganização do OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), organização fundada em 1995 que vinha passando por um período de baixa atividade.
Os esforços culminaram na Declaração de Bogotá, assinada em agosto do ano passado ao final da cúpula dos países amazônicos na capital colombiana. O texto declarou apoio ao mecanismo financeiro amazônico conhecido como TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre, na sigla em inglês) e lançado oficialmente meses depois, na COP30, e a uma nova estrutura de cogovernança indígena dentro da OTCA.
O combate ao crime organizado na fronteira também pode ser impactado. O tema virou o cavalo de batalha dos Estados Unidos sob Donald Trump, que priorizou a intervenção na América Latina neste segundo mandato —na última quinta, inclusive, Washington anunciou que vai incluir o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) em sua lista de organizações terroristas, causando comoção em Brasília.
“Espriella tem advogado por uma relação carnal com o governo norte-americano”, afirma Pedro Abramovay, vice-presidente de Programas da Open Society Foundations. “Se a Colômbia traz os EUA para ter base na amazônia ou comandar o combate ao crime organizado na amazônia, fica muito mais difícil ter parceria com o Brasil, que não aceita que essa cooperação seja liderada por Washington.”
Por fim, os esforços de Lula na integração regional e no fortalecimento de órgãos multilaterais possivelmente ganhariam mais um adversário, caso Espriella siga a cartilha da ultradireita na região.
Quando voltou ao poder, em 2023, Lula organizou uma ofensiva para reativar mecanismos regionais. Um deles foi a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), que teve apenas uma cúpula durante o mandato de Jair Bolsonaro (2019-2023), em 2021, e na qual o ex-presidente não compareceu por ter se retirado do órgão em 2020.
O retorno, porém, mostrou que o cenário não é o mesmo de quando o bloco foi fundado, em 2010. O texto final da cúpula de Honduras, por exemplo, no ano passado, não teve a adesão de Argentina, Paraguai e Nicarágua, uma situação que vem se repetindo em encontros do tipo.
“A vitória dele é uma incógnita”, diz Abramovay sobre Espriella. “Ele sai muito do que é a institucionalidade conservadora colombiana, que seria a Paloma Valencia”, continua, sobre a candidata da direita tradicional que apareceu em terceiro lugar nas últimas pesquisas de intenção de voto.
O ultradireitista, que tenta ser o Nayib Bukele colombiano, não tem trajetória política e ganhou destaque por sua retórica radical e pelos clientes pouco comuns de seu escritório de advocacia —membros de grupos paramilitares, David Murcia Guzmán, criador de um esquema de pirâmide que lesou mais de 200 mil pessoas, e Alex Saab, suposto laranja do ditador Nicolás Maduro e acusado de lavagem de dinheiro.
“Mesmo em períodos em que a América Latina era governada principalmente pela direita, a Colômbia sempre teve uma direita mais conservadora e radical do que em outros lugares, muito em função da guerra civil no país”, diz Abramovay.
As instituições do país, no entanto, sempre se mantiveram no lugar, de alguma forma. “Essa nova extrema direita não tem nenhuma relação com isso, vem de outro lugar.”
Lula esteve no poder no mesmo período em que Miguel Uribe, até hoje simbolo máximo da direita tradicional no país, era presidente da Colômbia. Ambos tinham uma boa relação —e é nesse pragmatismo que o Itamaraty aposta independentemente do resultado no país vizinho, segundo um funcionário da pasta que falou à reportagem.
O governo vem mantendo uma tratativa cordial com Paz, que visitou o Brasil em março e, mais recentemente, foi atendido por Brasília ao pedir ajuda humanitária em meio a uma onda de protestos, e Kast, com quem Lula falou por uma hora e meia em uma reunião bilateral no Panamá, em janeiro.
“Apesar de quaisquer diferenças ideológicas que possam existir quando alguém se candidata a um cargo político, a situação é diferente quando se representa um país”, afirmou o ultradireitista chileno após o encontro.




