Na ressaca da festa que tomou as ruas de Budapeste depois das eleições de domingo (12), os húngaros terão uma tarefa complexa pela frente: reconstruir a democracia que o autocrata Viktor Orbán dilapidou ao longo de 16 anos no poder. A reconquista da liberdade de imprensa e da liberdade acadêmica está na lista de desafios.
Durante seu mandato, Orbán submeteu a mídia pública ao controle de seu partido, o Fidesz, e estimulou empresários amigos a comprar emissoras e jornais privados. Esses veículos ou foram fechados ou deixaram o jornalismo de lado para fazer propaganda do governo.
Em um livro-reportagem sobre Orbán, o jornalista húngaro Paul Lendvai estimou que 80% dos cidadãos do país tinham a mídia governamental como principal fonte de informação.
“O jornal onde eu trabalhava, que era o maior jornal da Hungria, foi comprado e fechado dez anos atrás”, disse à Folha o jornalista húngaro Gábor Horváth, um dos principais colunistas políticos do país.
“Não acho que seja possível ressuscitar jornais, mas há esperança de que a Hungria volte a ser um mercado de mídia normal num país democrático, onde a qualidade e a popularidade dos veículos decidem seu destino, não o governo”.
Não será, no entanto, um processo fácil e rápido, na visão do romeno Marius Dragomir, diretor do Centro de Pesquisa em Mídia e Jornalismo da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). “Orbán construiu todo um sistema de mídia estatal que compreende rádio, televisão, jornais, meios digitais e uma agência de notícias, e não é tão simples se livrar dele”, afirma Dragomir, autor de estudos de referência sobre a imprensa na Hungria. “O caso polonês traz lições importantes.”
Entre 2015 e 2023, a mídia pública polonesa esteve sob o controle do partido Lei e Justiça, de ultradireita, que praticamente baniu a oposição de sua cobertura jornalística. Quando assumiu o governo em 2023, o premiê Donald Tusk, europeísta e de centro-direita, tentou reformar o sistema tornando-o mais parecido com o alemão. O governo anterior e os jornalistas da TV estatal entraram na Justiça.
“Houve avanços, mas o processo está em curso até hoje”, diz Dragomir. “E o controle sobre a mídia polonesa era menos radical que o exercido por Orbán na Hungria”.
Outra lição da Polônia é que os próprios jornalistas trabalharam para reconquistar a liberdade de imprensa. “Há vários bons jornalistas na Hungria e também vários jovens na mídia independente”, diz Horváth, que atualmente publica sua coluna no jornal Népszava (voz do povo, em húngaro), o mais antigo em atividade no país. “Essa imprensa de resistência já sobrevive a partir de doações de pessoas físicas e entidades da sociedade civil”.
Horváth cita o caso da rádio Klubrádió, que começou a fazer jornalismo independente e teve sua licença cassada em 2020, perdendo a concessão para operar em FM. Os jornalistas decidiram mudar a rádio para o meio digital e sobreviver de doações. “Nesse esquema a Klubrádió segue funcionando há seis anos”, afirma Horváth. Ele afirma que é um modelo viável num ambiente de negócios complicado.
“Como qualquer investidor, os empresários da área de mídia, locais ou internacionais, precisam de estabilidade política e de confiança, algo que não se conquista no curto prazo”, diz Dragomir.
Marcas tradicionais que aderiram ao esquema de Orbán se deterioraram. “Perderam totalmente a credibilidade”, avalia Horváth.
Dragomir enxerga outros complicadores. “A mídia estatal é a principal geradora de empregos para jornalistas. Entre os que não se submeteram, muitos mudaram de profissão e traçaram um novo rumo para as suas vidas. Orbán também viciou os veículos em publicidade estatal, e muitos jornais ou emissoras de televisão não sabem trabalhar fora desse modelo.” Para ele, há o desafio de mudar a cultura.
Além de dirigir um centro de estudos sobre jornalismo, Dragomir é professor da Universidade Centro-Europeia, a instituição acadêmica criada pelo investidor George Soros que foi banida da Hungria pelo governo de Viktor Orbán —hoje seu principal campus é em Viena, na Áustria.
O húngaro inviabilizou ou cortou o financiamento das universidades que faziam pesquisa independente, num modelo que depois Donald Trump adotaria nos Estados Unidos. “Recuperar a liberdade acadêmica é outro desafio, mas considero que a questão da mídia é ainda mais complexa”, afirma Dragomir.
Para Horváth, o escrutínio da União Europeia será decisivo para a recuperação das liberdades de imprensa e acadêmica. “Péter Magyar terá que agir rápido, pois precisa dos fundos europeus até agosto para fechar as contas”, afirma o jornalista. “Essa eleição não foi sobre esquerda versus direita, mas sobre Europa e democracia versus autoritarismo. Os negociadores da UE serão duros e não irão se contentar com meras palavras”.
No último índice mundial de liberdade de imprensa feito pela organização Repórteres sem Fronteiras, a Hungria aparece na 68ª posição entre 180 países, com cinco posições de diferença do Brasil, que ficou na 63ª colocação.




