Legalização da maconha na Alemanha enfrenta burocracia – 11/07/2026 – Mundo

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Num galpão na pequena Bitterfeld-Wolfen, na Saxônia-Anhalt, no oeste da Alemanha, fileiras de mudas de Inferno, Super Buff Cherry e Very Guava crescem tranquilas com a climatização perfeita e a irrigação nutritiva, que chega por tubos até os cubos de lã de rocha que suportam as plantas.

As espécies são as variações de maconha escolhidas pelos membros do Green Valley Club, um dos chamados clubes de cannabis. Há pouco mais de dois anos, a Alemanha legalizou parcialmente o uso recreativo da erva, e agremiações como essa puderam surgir.

Segundo a nova legislação, maiores de 18 anos podem cultivar até três plantas e portar até 25 gramas em público ou 50 gramas em casa. Os clubes de cannabis podem obter permissão para produção em larga escala e vender para até 500 membros, sem lucrar com a atividade.

Dois anos depois, porém, a lei ainda patina para substituir o mercado ilegal, de acordo com uma pesquisa encomendada pelo próprio governo para avaliar os efeitos da reforma e conduzida pela Universidade Eberhard Karls de Tübingen, pelo Hospital Universitário de Düsseldorf e pelo Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf.

Segundo o último relatório parcial divulgado pelos pesquisadores, um dos motivos é a dificuldade que os clubes enfrentam para se estabelecer. Até o fim de outubro de 2025, o país registrou apenas 366 associações. Como cada agremiação pode ter até 500 integrantes, isso significa que, no máximo, 3,5% do público consumidor tem acesso à erva por essa via.

A regulação da lei é feita pelos estados, mas ela geralmente proíbe o estabelecimento dessas agremiações perto de escolas, parques infantis, locais esportivos, áreas militares e áreas verdes.

Os estados divergem na rigidez com que aplicam a medida. Enquanto alguns nem emitem licenças, outros chegam até a acompanhar e ajudar os clubes.

“Foi tão difícil achar esse galpão quanto foi difícil achar um local onde seja permitido cultivar”, diz Jan Fischer, 29, gerente técnico do Green Valley. Por essa razão, a sede do clube fica em Berlim, mas a plantação acontece no estado vizinho da Saxônia-Anhalt.

A lei também veta qualquer tipo de propaganda, e a divulgação é feita no boca a boca e por algumas publicações no Instagram. Assim, novos membros aparecem lentamente. Hoje, o Green Valley tem cerca de 350 integrantes.

A reforma também retirou a cannabis medicinal da lista de narcóticos, facilitando, assim, a prescrição médica. Na prática, pode-se obter uma receita respondendo a um formulário na internet e comprar a droga em farmácias físicas ou virtuais.

O resultado disso foi o surgimento na Alemanha do maior mercado de cannabis medicinal da Europa, de acordo com a pesquisa encomendada pelo governo. De 2024 para 2025, a importação da erva para uso medicinal aumentou 198% no país.

Drogarias online fazem marketing agressivo, desrespeitando a lei de publicidade de medicamentos, e oferecem maconha com altos níveis de THC (principal composto psicoativo da cannabis), que pode oferecer riscos à saúde dos usuários, conforme a pesquisa.

De acordo com a lei federal, clubes de cannabis precisam regular o limite de THC para pessoas de 18 a 21 anos. Para fugir dessa limitação, o Green Valley estabeleceu que só aceitaria membros com mais de 21 anos.

Depois do cultivo, da colheita e do corte, o Green Valley envia toda a produção para um laboratório, que avalia a qualidade da planta e o nível do psicoativo. Tanta tecnologia requer grande dinheiro. Hoje, o clube se financia com a venda da maconha a € 5,95 (cerca de R$ 35) o grama. Mas o investimento inicial para a construção do galpão foi de cerca de € 500 mil (R$ 2,9 milhões).

“Nós poderíamos simplesmente usar terra e plantar nela. Mas a qualidade não seria a mesma. As pessoas comparam nossas flores com a vendida nas farmácias”, diz Fischer.

Se os custos podem desencorajar possíveis fundadores de novos clubes, também não anima o fato de que seus integrantes não podem ganhar nada com o trabalho na associação. Para se sustentarem, os fundadores do grupo, ex-estudantes de horticultura, trabalham em paralelo com o cultivo de cannabis medicinal.

A pesquisa encomendada pelo governo aponta que, embora ainda não se possa tirar conclusões do efeito da reforma sobre o crime organizado, os aumentos moderados do cultivo pessoal e da compra de maconha em farmácias, combinados com a ausência do aumento significativo de consumo, sugerem a diminuição da importância do mercado ilegal.

Entretanto, segundo os pesquisadores, a reforma também tornou mais difícil, na prática, responsabilizar os atores do crime organizado. A lenta substituição do mercado ilegal, indica o estudo, poderia ser acelerada com o fortalecimento das associações de cultivo. “Isso inclui especialmente a simplificação das regras legais para cultivo e distribuição de cannabis nesses clubes”, afirma.

Esta reportagem foi feita durante o Internationale Journalisten-Programme, que tem apoio do Ministério de Relações Internacionais da Alemanha



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