Houve eleições conturbadas no Peru e na Colômbia. A Venezuela voltou a enfrentar uma tragédia, com um terremoto que deixou milhares de vítimas. Ainda assim, não nos enganemos: quando o assunto é política na América do Sul, a Argentina quase sempre consegue atrair os holofotes para si.
E, mais uma vez, conseguiu.
Enquanto a atenção da região se dispersa entre diferentes crises, Javier Milei não pode desviar o olhar de sua própria realidade política. O presidente argentino enfrenta desafios internos que podem ser decisivos para o futuro de seu governo.
Quem concluir, a partir do atual cenário econômico, que Milei atravessa um período de estabilidade talvez esteja olhando apenas para a superfície. É verdade que a inflação desacelerou, os mercados deram sinais de confiança, e parte do eleitorado segue apostando no projeto libertário. Mas a política raramente permite vitórias definitivas.
Milei chegou ao poder prometendo destruir a velha “casta” política e inaugurar uma nova forma de governar, baseada na meritocracia, na austeridade e em um compromisso ético que, segundo ele, diferenciaria seu governo de todos os anteriores. À medida que o mandato avança, porém, cresce a percepção de que a realidade do poder exige concessões que entram em choque com parte desse discurso.
A última semana talvez tenha sido uma das mais reveladoras de seu governo. Mais do que mudanças na equipe, ela expôs três contradições centrais do projeto político que levou Milei à Casa Rosada: a promessa de superioridade ética, o combate permanente à “casta” e a guerra declarada contra a imprensa.
As dificuldades para manter a governabilidade vêm aproximando o governo de setores e personagens que, durante a campanha, eram apresentados como símbolos do sistema que Milei prometia combater. Na prática, a necessidade de construir maioria política e administrar crises parece conduzir seu governo aos mesmos mecanismos que ele dizia querer eliminar.
Ao mesmo tempo, o confronto permanente com a imprensa continua ocupando lugar central na estratégia oficial. Ataques a jornalistas e a tentativa de transformar críticas em perseguição política ainda mobilizam sua base mais fiel, mas também ampliam a polarização e dificultam a construção de pontes com setores moderados da sociedade.
Nesse contexto, a saída de Manuel Adorni adquire um significado que vai além de uma simples troca de nomes. Um dos rostos mais conhecidos do mileísmo e principal porta-voz da estratégia de enfrentamento do governo, Adorni simbolizou como poucos o discurso que levou Milei ao poder.
Sua saída marca, de certa forma, o fim de uma etapa e o início de outra, em que a sobrevivência política tende a falar mais alto do que a retórica de campanha.
Até aqui, Milei conseguiu preservar uma base sólida, impulsionada pela melhora de alguns indicadores econômicos e pela expectativa de recuperação. Mas governar é diferente de vencer uma eleição. À medida que 2027 se aproxima, a necessidade de ampliar alianças, acomodar interesses e garantir maioria política coloca o presidente diante do mesmo dilema enfrentado por tantos líderes latino-americanos: até que ponto é possível mudar o sistema sem acabar sendo absorvido por ele?
No fim, a próxima eleição não julgará apenas a inflação, o crescimento ou o equilíbrio das contas públicas. Julgará também a coerência de um projeto político que prometeu romper com a “casta” e refundar a política argentina.
Se vencer, Milei poderá afirmar que transformou um movimento de ruptura em um projeto duradouro de poder. Se perder, seus adversários terão uma narrativa pronta: a de que a revolução libertária terminou exatamente onde tantas outras experiências políticas terminaram —adaptando-se ao sistema que prometia destruir.




