Ela é mãe, católica, loira, jovem e tem boa capacidade de comunicação com os eleitores. No passado, essas palavras foram usadas para descrever Giorgia Meloni em sua trajetória política. Agora, os mesmos termos têm sido associados a Silvia Salis, prefeita de Gênova. Mas as semelhanças entre ela e a primeira-ministra italiana param por aí.
Eleita em maio de 2025 para administrar a importante cidade portuária do norte da Itália, Salis, 40, vem sendo chamada de “anti-Meloni”. Ela é de centro-esquerda e chegou ao cargo apoiada pelos principais partidos que fazem oposição ao governo.
Sua figura ganhou projeção nacional depois que a conservadora Meloni, 49, perdeu o referendo constitucional do fim de março. A premiê se empenhou pessoalmente na campanha pelo “sim”, mas a reforma ligada ao sistema judiciário foi rejeitada por 53% dos eleitores.
Desde então, os preparativos para as eleições legislativas de 2027 se intensificaram. Ajustes vêm sendo feitos internamente pelos partidos de direita que formam a coalizão no poder, e Meloni tenta manter seu Irmãos da Itália em primeiro lugar nas intenções de voto, como é hoje.
Já a oposição viu no resultado do referendo um sinal de insatisfação popular contra o governo, uma oportunidade para derrotá-lo nas urnas. Entre as legendas de centro-esquerda, abriu-se um debate sobre como definir o candidato mais competitivo. Os holofotes encontraram Salis.
No início de abril, seu nome ganhou ainda mais destaque depois de uma entrevista à Bloomberg, na qual disse que levaria em consideração um eventual convite para representar a oposição unida na disputa do ano que vem.
Dias depois, publicou nas redes sociais fotos suas no palco de uma apresentação da DJ belga Charlotte de Witte em uma praça de Gênova. Em um mês, Salis ganhou mais de 200 mil seguidores no Instagram. Com 558 mil, ela tem mais seguidores do que os prefeitos de Roma, Milão e Nápoles juntos. Nesta semana, está na capa da edição italiana da revista Vanity Fair.
Salis foi eleita prefeita de Gênova, onde nasceu, como outsider da política. Ela não é filiada a um partido, o que contribuiu para unir uma ampla coalizão em torno do seu nome. Filha de um ex-operário e uma ex-funcionária da prefeitura, é casada com um diretor de cinema e tem um filho pequeno.
Sua carreira foi no esporte. Na adolescência começou a praticar atletismo e se especializou no lançamento de martelo. Ganhou medalhas nacionais, competiu fora da Itália e participou das Olimpíadas de Tóquio-2008 e Londres-2012, sem bons resultados.
Deixou as competições após uma lesão e passou a atuar como dirigente esportiva. Em 2016, foi eleita para um cargo na federação de atletismo e passou a fazer parte do Comitê Olímpico Nacional Italiano, do qual se tornou vice-presidente em 2021.
Há dois anos, chamou a atenção fora do mundo esportivo ao ser convidada para um evento organizado pelo ex-premiê Matteo Renzi, famoso por seu bom faro político. “Sempre fui apaixonada por política, sou formada em ciência política. E rapidamente me senti confortável na política esportiva”, disse Salis no evento.
Cerca de um ano depois, foi a mais votada em Gênova, com uma campanha centrada no combate à desigualdade e na atenção aos bairros periféricos.
“Foi um percurso construído, não improvisado, aproveitando que as forças de centro-esquerda havia muito tempo que não conseguiam apresentar um rosto novo”, diz à Folha Mara Morini, professora de ciência política da Universidade de Gênova. “Ela chegou ao lugar certo na hora certa. É mulher, jovem, com grande capacidade oratória e carismática.”
Uma das primeiras medidas como prefeita foi emitir certidões de nascimento para crianças com duas mães. Em 2023, o governo Meloni contestou o registro com genitores do mesmo sexo, forçando as famílias a uma batalha burocrática. Em 2025, a Justiça considerou o veto ilegítimo.
Prestes a completar um ano na administração da cidade, Salis enfrenta dificuldades na reorganização financeira da empresa de transporte público, que fechou 2024 com 280 milhões de euros em dívidas.
Analistas dizem que é cedo para avaliar seu desempenho. “Ela tem dossiês difíceis, e vamos ver como conseguirá resolvê-los. Disso vamos entender efetivamente a qualidade e a eficácia das suas políticas públicas”, diz Morini.
Enquanto os partidos discutem quem vai enfrentar Meloni, pesquisas mostram que Elly Schlein, líder do Partido Democrático (PD), é a preferida dos eleitores de centro-esquerda. Segundo o instituto YouTrend, ela é apontada por 41%, ante 25% de Salis. Outro no páreo é o ex-premiê Giuseppe Conte (Movimento 5 Estrelas), com 26% das preferências.
Diante de divisões no “campo largo”, como é chamada a possível união da oposição, resta saber se Salis vai encarar o desafio.
“Vamos ver a capacidade de Salis de avaliar se é melhor continuar em Gênova para evitar ser queimada em nível nacional ou aproveitar a chance de se apresentar como alternativa ao governo Meloni”, diz a professora Morini.




