A atenção dos americanos à Copa do Mundo superou até as expectativas dos otimistas. Quando as primeiras seleções e equipes de jornalistas começaram a desembarcar nas cidades anfitriãs, a impressão foi de indiferença geral.
Mas os recordes de audiência das transmissões ao vivo mostram um vasto público ligado nas partidas de times estrangeiros. Para um país que batizou de “World Series” o campeonato nacional de beisebol, um esporte amplamente ignorado no mundo, essa insularidade parece estar se revertendo.
O jogo entre França e Marrocos nesta quinta (9) pode confirmar a tendência, agora que a seleção dos EUA foi eliminada.
Até a Telemundo, que transmite a Copa em espanhol, está comemorando e seus narradores –que pronunciam “Brasiu”– demonstram maior cultura sobre o esporte. Sim, a Telemundo já tinha um público mais leal ao futebol entre os hispânicos.
A Fox, com mais do que o dobro da audiência média dos jogos da Copa nas transmissões em inglês, anunciou, no começo da semana, que mais de 100 milhões de americanos assistiram a alguma partida nas múltiplas plataformas.
Para se ter uma ideia, a final do Super Bowl de fevereiro de 2025 teve uma audiência recorde, na TV e online, de 127 milhões nos EUA. Além de ser o esporte que mais tem público no país, o futebol americano tradicionalmente investe pesado nas finais, atraindo artistas como Bad Bunny para o show do intervalo e estrelas de cinema para os comerciais.
Para esta carioca, a experiência de assistir a futebol na Fox é frustrante. O ruído da multidão no estádio é amplificado a ponto de abafar a voz dos narradores, cujo estilo ainda trai uma certa falta de familiaridade ou paixão pelo esporte que insistem em chamar de “soccer”.
Infelizmente, para quem foi levada, na infância, ao Maracanã procurando espetáculo na grama e não em telões e pirotecnias, as distrações maníacas que marcam os esportes profissionais nos EUA vieram para ficar no futebol.
A popularidade inesperada desta Copa, que incluiu maior número de “watch parties” —transmissões ao ar livre— pode revelar mais do que um público dormente e mal servido de futebol. Os EUA se tornaram a primeira nação anfitriã a bombardear um país durante o torneio e deixaram claro que a seleção do Irã não era bem-vinda.
Expulsaram um juiz somaliano e foi preciso intervenção do líder democrata da Câmara, Hakeem Jeffries, para a mãe do goleiro Vozinha, de Cabo Verde, entrar no país. A Copa começou neste clima de animosidade oficial a estrangeiros que pode ter convencido muitos a não viajar para os EUA.
Mas, como se viu, em várias cidades, a interação fraterna entre torcedores de dezenas de países e o público local lembrou que o isolacionismo não é o sentimento dominante entre 349 milhões de americanos.
Depois da derrota contra a Bélgica —que registrou 42 milhões de audiência, em inglês e espanhol—, as equipes de reportagem na porta do estádio de Seattle encontraram torcedores com uma energia que certamente não percebi aqui na Copa de 1994.
Vários jovens torcedores, com a cara pintada de vermelho azul e branco, acenaram confiantes para as câmeras dizendo: “Até 2030!”. Resta saber se o (escolha aqui seu adjetivo) Gianni Infantino vai durar até lá no comando da Fifa.




